quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Cracolândia e a Folha de São Paulo

Prezados moradores e vizinhos de Campos Elíseos,

Já não sem tempo, o editorial da Folha de S.Paulo de hoje retoma o assunto da cracolândia e o fechamento de cursos médios do Liceu Coração de Jesus!

Sem dúvida, a imprensa (talvez, melhor ainda, a mídia) teria uma importante função social ao denunciar e cobrar do Poder Público as ações que nós, meros moradores do bairro, e sem voz, há muito vimos cobrando e denunciando.

Esse editorial, no entanto, requentando tudo o que já sabemos à exaustão, parece mais uma resposta “oficial” dos políticos que estão à frente do Poder Público para, mais uma vez, nos pedir “paciência e resignação”. Seria uma forma de amenizar ou controlar nossa revolta para não expormos o que o próprio jornal deixa de fazer, ou seja, as vísceras desses governos municipal e estadual que passivamente entregam o problema à especulação imobiliária, como se prédios novos e envidraçados bastassem para resolver o problema (que, aliás, já não é mais de moradores de rua, pois as notícias já nos dão conta do grande envolvimento da classe média com o crack!).

Esse tom neutro e obsequioso do Editorial da FSP em relação àqueles “que governam” omite os nomes dos responsáveis (governadores, secretários, prefeitos e vereadores) e deixa de dizer a verdade: que o Poder Público (Estado e Município) não está interessado em resolver esse problema, pois não envolve efetivamente a Saúde, a Assistência Social (SMADS), a Secretaria do Trabalho, a de Habitação, o Ministério Público e todas as outras instâncias afins para enfrentamento desse grande desafio. No máximo, esses que hoje ocupam e de há muito vêm ocupando os mesmos lugares do Poder Público tentam nos enganar colocando na rua a polícia, que só faz espalhar o problema daqui para ali. E ainda com a empáfia de dizer que dessa vez o Poder Público está de fato atuando!

Observem que no texto do Editorial não há nenhum questionamento mais articulado em relação às ações desastradas do Poder Público até hoje, não há cobranças em relação ao envolvimento das áreas de Saúde, Habitação, Serviço Social, do Ministério Público etc., mas sim uma lamentável conivência com o “crime” das concessões urbanísticas transferidas à iniciativa privada que vai pisar na história do centro velho transformando tudo em shopping Center envidraçado (comprando a preço de cracolândia e vendendo a preço de Berrine). Para que, então, um Editorial desses, que diz o que o senso comum diz e quer ouvir?

Por essas e outras, é preciso que aprendamos a ler com cuidado essa nossa imprensa. Afinal, a serviço de quem está a Folha de S.Paulo?

Nelson Luis Barbosa

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Avanço da Cracolândia II

Se observarmos, por exemplo, a votação dada a Kassab e a vereadores do DEM em nosso bairro (Campos Elíseos), saberemos que temos um contrassenso, um paradoxo. Estamos reclamando do quê? Se não há consciência política, temos, infelizmente, que sofrer pelos nossos próprios erros. Os dados estão aí: os votos de nosso bairro foram maciços para Kassab. Este, como se sabe, engaja-se cada vez mais nas eleições de 2010, mas sem descuidar da Associação de Moradores dos Jardins, a AME Jardins, da qual faz parte. Se o prefeito participa da reunião dessa Associação, por que não vem a nossa? Ele é prefeito da cidade ou apenas morador dos Jardins? Se há erros grosseiros deste governo que está aí há quase 20 anos na direção do Estado e há 5 anos na Prefeitura, há também pecados capitais na escolha desses governantes. Não tenho os dados em mãos, mas desconfio de que os votos dados a Paulo Maluf, em 1992, e a Celso Pitta, em 1996, também tiveram peso em nosso bairro. Daí, como diz o grande geógrafo Milton Santos, percebemos que o espaço urbano é, sobretudo, um depositário de muitos tempos. Em nosso caso, esses tempos, resíduos percucientes, são de irresponsabilidade política de governantes e eleitores. Tempos que reverberam atrozmente sobre e contra nós. Será que há, pelo menos, um cão cheirando o futuro?

Avanço da Cracolândia I

Prezados amigos, vizinhos e moradores de Campos Elíseos,

É com muita tristeza que repassamos esta notícia do fechamento do ensino médio do Liceu Coração de Jesus (Folha de S.Paulo, 28/10/2009) em Campos Elíseos.

Infelizmente para nós, tanto o Poder Público municipal quanto o Poder Público estadual, que comandam sobretudo o Estado há quase vinte anos, não estão definitivamente interessados em resolver o problema da Cracolândia na região, a não ser empurrar o problema para o nosso bairro, criando mais uma farsa chamada operação “Centro Legal”, em que não há compromissos por parte da Saúde, da Assistência Social e do Ministério Público – toda ação é meramente policialesca.

Também a farsa do investimento pesado na revitalização da região vem sendo desmascarada dia a dia, pois todos os equipamentos culturais aqui instalados servem apenas para distrair uma elite que mal se relaciona com o bairro e seus problemas, além de os projetos de revitalização somente atenderem a interesses da especulação imobiliária.

Nosso bairro precisa reagir e se preparar para a próxima eleição em 2010. Precisamos dar uma resposta a esses representantes do Poder Público.

Associação de Moradores de Campos Elíseos

Dinah e Nelson

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Conclusão

A morte é grande.
Nós, sua presa,
vamos sem receio.
Quando rimos, indo, em meio à correnteza,
chora de surpresa
em nosso meio.

Rainer Maria Rilke

CAMPOS, Augusto de. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2007.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Tão pequeno

Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

Caetano Veloso

[ sobre poema de Luís de Camões ]

quarta-feira, 29 de julho de 2009

XXVII

Avec ses vêtements ondoyants et nacrés,
Même quand elle marche on croirait qu'elle danse,
Comme ces longs serpents que les jongleurs sacrés
Au bout de leurs bâtons agitent en cadence.

Comme le sable morne et l'azur des déserts,
Insensibles tous deux à l'humaine souffrance,
Comme les longs réseaux de la houle des mers,
Elle se développe avec indifférence.

Ses yeux polis sont faits de minéraux charmants,
Et dans cette nature étrange et symbolique
Où l'ange inviolé se mêle au sphinx antique,

Où tout n'est qu'or, acier, lumière et diamants,
Resplendit à jamais, comme un astre inutile,
La froide majesté de la femme stérile.

BAUDELAIRE. Charles. “Les Fleurs du Mal”. In: Oeuvres complètes. Éditions Robert Laffont, 2001.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Carta-manifesto contra a Cracolândia

A comunidade do bairro de Campos Elíseos e adjacências vem publicamente protestar junto à Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado quanto ao modo como vêm tratando o grave problema da Cracolândia e dos moradores de rua na cidade de São Paulo.

Campos Elíseos e bairros adjacentes não aceitam que a nova Cracolândia se instale nas suas ruas, sendo empurrada pela Prefeitura, que entrega a região da Nova Luz ao poder do capital e da especulação imobiliária.

Exigimos que a Prefeitura e o Governo do Estado apresentem urgentemente solução para o problema e um plano de metas para nossos bairros, considerando:

a) A necessidade de um programa sério de saúde, criado e mantido pela Prefeitura e pelo Estado, para tratamento de usuários de crack e outras drogas, com criação e implementação de clínicas para tratamento de dependentes químicos.

b) Promova uma discussão pública e com especialistas a respeito do direito dessas pessoas a tratamento de saúde e acolhimento social.

c) Respeito à Lei Municipal 12.316 em relação aos serviços sociais necessários e urgentes para acolhimento e atendimento a moradores de rua, devolvendo-lhes a dignidade perdida e/ou ameaçada.

d) Coíbam e fiscalizem ações assistencialistas no bairro que visam manter as pessoas carentes em situação de miséria permanente por exclusiva dependência de supostos benefícios.

e) Promovam a revitalização e recuperação dos bairros centrais para que estes não venham a se tornar, posteriormente, alvo da especulação imobiliária que pisa na história dos bairros e da cidade de São Paulo.

Nosso manifesto visa mostrar à população que, por atrás de importantes e necessários equipamentos culturais para a cidade, como a Sala São Paulo, a Estação Pinacoteca e a Escola de Balé, existe um entorno totalmente degradado que agoniza a céu aberto e que tem sido tratado pelo Poder Público com desprezo e desrespeito aos cidadãos do centro. Não queremos que nossos bairros se tornem num futuro próximo alvo de predadores movidos exclusivamente pela especulação imobiliária.

Exigimos respeito, segurança e participação nas decisões quanto ao futuro de nossos bairros.

São Paulo, julho de 2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ingenuidade

Não
Eu não podia me enganar assim
Com uma criança qualquer
Que veio ao mundo bem depois de mim
Eu não reclamo o que ela fez
Só condeno a mim mesmo
Por ter me enganado outra vez

Eu fiz o papel de um garotinho
Quando arranja a primeira namorada
Na ingenuidade, acredita em tudo
Porque do amor não entende nada
Esqueci que um dia machuquei meu coração
E levei muitos anos pra curar
E fui tornar molhar meus olhos
Coisa que eu luto a muitos anos pra enxugar.

(Serafim Adriano)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mortal loucura

Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra.

Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

O voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.

(Zé Miguel Wisnik e Gregório de Matos)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Das solidariedades hipócritas

Não vejo maiores movimentações da "sociedade civil" ou da "imprensa" para se solidarizar com os maranhenses e piauienses, vítimas das enchentes, tal como vimos com insistência na telinha da Globo, meses atrás, a propósito da "tragédia de SC". O sensasionalismo e a hiprocrisia nos assolam, inundando nossa alma já azeda.

Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

CAMÕES, Luís de. "Sonetos". In: Obra Completa em um volume. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2005, p. 273.

Fenômeno

Ele conhece todos os atalhos. Impressiona pela inteligência: de antemão intui o espaço a ser ocupado, precisando menos da força física e mais do pensamento arguto, que sabe bem antes da bola chegar o que e como fazer.

domingo, 26 de abril de 2009

Le temps

"Mon ami, faisons toujours des contes...
Le temps se passe, et le conte de la vie
s'achève, sans qu'on s'en aperçoive".

Diderot

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Muito além do Cidadão Dantas

É no mínimo estranho a ênfase dada pela Globo ao conflito entre MST e os seguranças da fazenda Espírito Santo, no Pará. Em nenhum momento a Globo revela que o proprietário da fazenda é justamente o Daniel Dantas. Por que será, hein?

Gilmar Dantas

Sinto pelos leitores que prezam a ordem e o tradicional clima cordial do STF. Embora tenha horror às controvérsias e ao bate-boca, devo dizer que senti um enorme prazer ao ouvir as palavras do ministro Joaquim Barbosa.

Um Homem de Moral

De Adoniran Barbosa, ao mostrar a diferença entre os sambas dele e os de Paulo Vanzolini: "O Vanzolini é erudito e eu sou pitoresco".

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sobre a intuição

O raro leitor sabe o quanto a intuição é fundamental neste mundo tão descrente de tudo. A intuição é um ver onde não se vê. É um visto não visto, mas que se sabe. Na intuição temos o pressentimento, e também o discernimento. O que se sente e o que se percebe racionalmente, mas sempre como mistério. É da faculdade da intuição captar essências que de tão temporais e fluidas, são paradoxalmente concretas. Trata-se de um alargamento do espaço, entrelaçamento entre real e ficcional, desde que se entenda todo ficcional como alargamento de formas possíveis. A isso chamaria intuir. Escreveu Fernando Pessoa que para decifrar os símbolos era preciso cinco qualidades: simpatia, compreeensão, inteligência, a conversa com o anjo da guarda e justamente a intuição. Por intuição, escreveu o poeta, entende-se o que está além do símbolo, o entendimento que se sente, sem que se veja. Acrescentaria que para entender sem ver é preciso ver. Ver o que está além do símbolo. É o que nos falta.

South American Way

Have you ever danced
in the tropics?
With that hazy lazy
Like, kind of crazy
Like South American Way

Ai, ai, ai, ai
Have you ever kissed
in the moon light
In the grand and Glorious
Gay Notorious
South American Way

Um só coração

Uma vida aguenta as efusividades de um coração ?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sobre os mortos

''O pior dos mortos é que nunca telefonam'', escreveu certa vez Rubem Braga.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Poética da recusa

Henri Michaux e a recusa de ser fotografado: “escrevo para revelar uma pessoa de cuja existência ninguém suspeitaria ao olhar para mim”

Muros

De Saramago, sobre os muros do Rio: Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda a parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Memorial de Aires

Do Conselheiro Aires, ao justificar a preferência pela conversação das mulheres: "Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem, agrava".

segunda-feira, 30 de março de 2009

Crise

Olhos Azuis

Do ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva:

A Folha adora debochar das mancadas verbais do presidente Lula. Quase sempre de maneira preconceituosa, elitista, exagerada, inócua e equivocada porque um presidente deve ser julgado pela sua administração, não pelo seu português ou seus conhecimentos gerais.
Na sexta, deu destaque a um desses deslizes: a acusação de que a crise econômica é culpa de "gente branca com olhos azuis". A frase tem conotação racista e ideológica, foi proferida diante de um chefe de governo de nação majoritariamente branca e merecia repercussão.
Mas ao armar uma pegadinha para Lula e mostrar que há envolvidos na crise negros, asiáticos e de olhos castanhos, o jornal aceita a premissa do argumento e se nivela com ele.

Porque a carga horária almentar ?


A semana foi cheia: Camargo Corrêa, Daslu e olhos azuis. Todavia, esta imagem merece todo o destaque. O raro leitor diria: Cacilda !!!

domingo, 8 de março de 2009

Ronaldo x Palmeiras

Nunca achei tão merecido um gol do Corinthians. Os deuses iluminam e a bola procura o craque.

sábado, 7 de março de 2009

Le Philosophe lisant


Chardin ( 1734)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

"Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos".

"Feliz é o destino da inocente vestal
Esquecida pelo mundo que ela esqueceu
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança"

Epitáfio

Rose, oh reiner Widerspruch, Lust,
Niemandes Schlaf zu sein unter soviel
Lidern.

Rosa, ó pura contradição, volúpia
De ser o sono de ninguém sob tantas
Pálpebras.

Rainer Maria Rilke
(tradução de Manuel Bandeira)

A Pantera

No Jardin des Plantes, Paris

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
Grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

Rainer Maria Rilke
(tradução de Augusto de Campos)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Póstudo


Augusto de Campos

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Feito um riachinho num ribeirão

Antes, nos outros lugares onde morara, tudo acontecia já emendado e envelhecido, igual se as coisas saíssem umas das outras por obrigação sorrateira - os parentes, os conhecidos, até os namoros, os divertimentos, as amizades, como se o atual nunca pudesse ter uma separação certa do já passado; e agora ele via que era dessa quebra que a gente precisava às vezes, feito um riachinho num ribeirão ou rio precisa de fazer barra.

ROSA, João Guimarães. "A Estória de Lélio e Lina". In: Corpo de Baile. Volume 1. Edição Comemorativa 50 anos. São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2006.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Plataforma 2009

Não põe corda no meu bloco,

nem vem com teu carro-chefe,

não dá ordem ao pessoal.

Não traz lema nem divisa que a gente não precisa

que organizem nosso Carnaval.

Eu não sou candidato a nada,

meu negócio é madrugada mas meu coração não se conforma.

O meu peito é do contra e por isso mete bronca

nesse samba-plataforma:

por um bloco que derrube esse coreto,

por passistas à vontade que não dancem o minueto,

por um bloco sem bandeira ou fingimento

que balance a abagunce o desfile e o julgamento,

por um bloco que aumente o movimento,

que sacuda e arrebente o cordão de isolamento.

João Bosco & Aldir Blanc

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Chá de Jurubeba

Lula tem razão: ler jornal faz muito mal ao fígado. Ouvi com atenção o conselho, uma vez que já exijo bastante do querido figueiredo...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Preleção I

(...)Mas era esperto o bastante
Para admirar o poeta
Por ele suportar com bons modos
As circunstâncias desagradáveis:
Aquelas damas com as melhores intenções,
Os esnobes e seus aplausos,
O canibalismo e as guerras
Do seu século.

Porque o palestrante apenas fingia
Estar entre eles, com eles.
Na verdade, recolhido,
Estava contando sílabas.
Servo da arquitetura,
Criador de variantes de cristal,
Se apartava da causa
Irrazoável dos mortais. (...)

MILOSZ, Czeslaw. "Preleção". In: Não Mais. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Coleção Poetas do Mundo. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2003.

Preleção II

(...) E infelizmente, infelizmente passaram
A alegria e o choro,
A fé e o desespero,
A vileza e o horror.
O vento cobriu de neve os sinais,
A terra levou os gritos,
Hoje ninguém mais se lembra
Como e quando isto foi.

E só um dourado, brilhante
Verso decassilábico
Perdura e perdurará pela própria
Harmoniosa razão.
E eu, tarde, retorno
Com um pouco de amargura
Ao seu cemitério marinho
Num meio-dia começado a cada dia.

MILOSZ, Czeslaw. "Preleção". In: Não Mais. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Coleção Poetas do Mundo. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2003.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Crase

Afinal, a crase foi feita ou não para humilhar alguém?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Pecado?

- "Dito, eu fiz promessa, para Pai e Tio Terêz voltarem quando passar a chuva, e não brigarem, nunca mais ..." " - Pai volta. Tio Terêz volta não." " - Como é que você sabe Dito?" "- "Sei não. Eu sei. Miguilim, você gosta de tio Terêz, mas eu não gosto. É pecado?

ROSA, João Guimarães. "Campo Geral". In: Corpo de Baile. Volume 1. Edição Comemorativa 50 anos. São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2006.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Legados de FHC

Sem dúvida alguma, o governo FHC foi medíocre, para dizermos o mínimo. E isso é ponto pacífico, a não ser que resolvamos dar ouvidos aos tucanos e neotucanos de plantão. Mas ainda há um pingo de lucidez a este escriba e certamente isso não faria. Assistiria a um jogo da série B, iria à Bienal ou beberia uma cerveja quente. Seria melhor. Digo isso porque me parece que nada tenha sido pior nos anos tucanos do que a indicação de Gilmar Mendes para o STF. Parece ficção o fato de que Protógenes tenha saído da condição de investigador para a de investigado em tão pouco tempo. Mas não é. Trata-se, na verdade, desta realidade crua que bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos. O mais alto "sentimento humano" jamais perdoaria FHC por tal façanha.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Também este dia passará

O dia ainda claro na igreja,
e tudo em volta é esta solidão.
a vida em seus intervalos
o vazio da morte
a vida da vida.

Num mesmo e outro tempo
meninos jogam futebol
até entardecer: horário de verão.

Ode Marítima

O que quero é levar pra Morte
Uma alma a transbordar de Mar,
Ébria a cair de coisas marítimas

PESSOA, Fernando. "Poesias de Álvaro de Campos". In: Ficções do Interlúdio. In: Obra poética. Vol. Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2001.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Um João

João não era fabulista, mas a própria fábula. Desses amigos que não precisamos "fazer", pois os reconhecemos desde logo. Há uma espécie de energia em cada momento compartilhado e que às vezes não nos damos conta. Contigo foi diferente. Rápido, percebi. Por isso, continuarei pensando que virás ainda para mais uma "mão de vaca", uma visita ao Masp ou para irmos ao restaurante japonês. João, nesta terça-feira, o dia amanheceu, mas não para nós. Fica a sensação de que um cometa nos transpassou, iluminando-nos por alguns instantes e dizendo que a vida é possível, apesar de tudo, que nós passamos por ela e ela por nós, e que nela vale a pena ter alegria. Morre jovem o que os Deuses amam é um ensinamento muito antigo. Culparemos os deuses, então? Hoje, neste imenso e vazio agora, a pergunta já não nos cabe. Ficamos com nossa saudade, esta ausência tua para outra vida, para a mesma vida, a vida continuando no que você viveu. Você não se despediu, mas sabemos conosco que faltará a este mundo um pouco de tua alegria.

El Aleph

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável.

BORGES, Jorge Luis. "O Aleph". In: O Aleph. Tradução de Flávio José Cardozo. São Paulo: Ed. Globo, 2003.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Carta ao Homem do Povo Charlie Chaplin

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duas horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados,
os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irreponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. In: Poesia Completa. Volume Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2002.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Astúcias do Dis-curso

Quando se ouve de Soninha Francine que a sua saída do PT deve-se a discordâncias com os rumos que o partido tomou, acho que todos devemos achar razoável e plausível o argumento. Quando Soninha entra para o PPS de Freire já não podemos pensar o mesmo. E o que dizer dos elogios que ela faz ao governador José Serra? Mas a gota d'água é este apoio a Kassab do DEMo. Que eu saiba nem Kassab, nem o DEMo são um jeito novo de fazer política. DEMo é PFL, que é Arena, e que é tudo o que há de mais atrasado neste país. "Ser jovem e idealista" é apenas um chavão marqueteiro associado ao que tem de pior na política. Votar na Soninha significa marcar uma posição: estar ao lado de "políticos tradicionais" e de um marketing que simula um olhar diferenciado sobre a política, mas que no fundo é muito pior do que tudo o que vimos e vemos por aí.

Partida

Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.

SÁ-CARNEIRO, Mário de. "Dispersão". In: Poemas. Edição Teresa Sobral Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Obra em Progresso

Sem querer inclinar-me para lá ou para cá, mas foi grosseirão o tal de Bagno, hein!

domingo, 10 de agosto de 2008

Cacófatos do MMA

Minc confisca gado.

sábado, 2 de agosto de 2008

Comissão Brundtland, 1987

“Desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades”.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Boi voador não pode

São 80 milhões de cabeças na Amazônia: Manda prender esse boi ... Seja esse boi o que for ...

ONGs na Amazônia

Efeito da democracia ou sucateamento do Estado?

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Questão de fundo 2

No fundo, os novos fundos do mercado agrícola internacional são os grandes responsáveis pela "era não-geográfica" da alimentação, para reiterarmos a expressão de Carolyn Steel. Quem vive em grandes cidades não imagina que o bife, o leite e os ovos consumidos vêm de algum lugar distante e improvável do planeta. Além disso, os preços em alta, frutos de mera especulação dos mercados da volatilidade, acabam com o fundo dos bolsos dos mais pobres, para não dizermos mais de outra maneira.

Contra Blairo Maggi

Para o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a área desmatada na Amazônia Legal caiu em junho. Para a Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) o desmate aumentou. Uma coisa é certa, como diz o Millôr: nas grandes cidades se mata, na Amazônia se desmata.

Será?

De Kassab para o povo de São Paulo: "Se eu tivesse bola de cristal, não teria participado (O prefeito foi secretário de Planejamento de Celso Pitta). As pessoas me conhecem hoje, sabem a minha maneira de trabalhar, a seriedade como trato dos recursos públicos", disse. "Se o tempo voltasse, evidentemente eu não participaria."

Questão de fundo

O Ministro Tarso Genro, em seu discurso contra os torturadores do regime militar: "Essa é uma discussão de fundo, da democracia, é uma discussão de fundo sobre todos. É uma discussão sobre as instituições da república, portanto, uma discussão sobre o nosso futuro".

Termômetro

O mundo aquece, enquanto a Exxon, maior petrolífera do mundo, aquece seu próprio cofre. A empresa teve no ano passado o maior lucro da história do capitalismo: US$ 39,5 bilhões.

Clima de Omissão

Parar limitarmos o aquecimento global a 2C, podemos jogar "somente" 750 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera neste século. Se nada for feito, será emitido até o fim do século 1,4 trilhão de toneladas. Isso é o que afirma os relatórios do IPCC, de fevereiro de 2007.

É muita sujeira para se atingir o "progresso", não?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Consenso

A Rodada Doha rodou.

sábado, 26 de julho de 2008

Contra a auto-ajuda

Se todos forem prósperos, certamente o mundo será ainda mais chato.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Mar sonoro


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.

A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Dia do Mar. Lisboa: Ática, 1947.

terça-feira, 22 de julho de 2008

A Mídia e os banqueiros

A partir do momento que a imprensa chama Daniel Dantas de "banqueiro desonesto", fica evidente que algo cheira muito mal. Sabe-se que a expressão "banqueiro honesto" é paradoxo, antítese, oxímoro.

domingo, 20 de julho de 2008

Zé Pilintra

Em alguns casos seria interessante instituir o teste de bafômetro para pedestres ...

sábado, 19 de julho de 2008

Alstom: Consórcio Via Amarela

O buraco do metrô de São Paulo é mais em cima.

Data

Não se navegam os corações como os mares deste mundo; não se trocam sensações como as mercadorias deste mundo; o escuro do futuro não é tão palpável quanto a renúncia deste mundo.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Espero

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Poemas Escolhidos. Seleção de Vilma Arêas. São Paulo: Companhia das Letras, 2004

quinta-feira, 17 de julho de 2008

No poema

No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Mar Novo". In: Poemas Escolhidos. Seleção de Vilma Arêas. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Instantes

Há intantes que são nossos; vivemos com eles. Em algibeiras líquidas, nós os guardamos, porque outros pintam e outros hão de pintar. No sonho colorido do pintor, eles aparecem imprimindo lágrimas, criando cores, ensejando traços, refazendo o desenho. Importam como força formadora e não como produto final. Conferem duração à gênese do tempo: vivimento real, eles formam e desformam. Nós os temos, mas sobretudo, procuramos.

domingo, 13 de julho de 2008

Eureka !

Tiquira

Acepções
substantivo feminino
Regionalismo: Norte do Brasil

aguardente de mandioca

Etimologia: tupi ti'kïra 'aguardente de mandioca' (Dicionário Houaiss)

Hipóteses

A vida é um abre olho e fecha olho, um abrir e fechar o olho, um abre e fecha olho. Até um dia em que os olhos não abrem e não há mais depois. Haverá uma outra coisa: um olho fechado, uma outra coisa ...

O corte das palavras da Corte

Não há somente o reino das palavras, mas também as palavras do reino. O penetrar surdo destas últimas causa alarido e dissipa as possibilidades do outro reino, que não tem rei. As palavras do reino, ao contrário, têm rei. E o rei julga a inaceitável convicção íntima de seus subordinados, pensando que a convicção dele, além de ser aceitável, é imprescindível para o bem comum do corpo místico do reino.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Das Wort Vom Zur-Tiefe-Gehn

IR-AO-FUNDO,
a palavra que lemos.
Os anos, as palavras desde então.
Somos sempre os mesmos.

Sabes, o espaço é infinito,
sabes, não precisas voar,
sabes, o que se escreveu em teu olho
aprofunda-nos o fundo.

CELAN, Paul. "A Rosa-de-Ninguém". In: Cristal. Tradução de Claudia Cavalcanti. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1999.

E agora quem poderá me defender ?

Pelo visto, ao contrário de Cacciola, Daniel Dantas não precisará ir tão longe para pedir auxílio.

Contra a Mídia

O presidente do STF não gostou da "espetacularização das prisões". Segundo ele, seria com comedimento que a PF deveria agir na prisão de Nahas, Dantas e Pitta. Se possível, sem divulgação da imprensa. Tudo para não afetar a honra dos acusados. Seria muito melhor se o STF dissesse o que pode e o que não pode ser noticiado. Também seria interessante que se deixasse claro qual a ênfase conveniente a ser dada a cada assunto.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Na Asa do Vento

A lua é clara
O sol tem rastro vermeio
É o mar um grande espeio
Onde os dois vão se mirar
Rosa amarela quando murcha
Perde o cheiro
O amor é bandoleiro
Pode inté custa dinheiro
É fulô que não tem cheiro
E todo mundo quer cheirar

Luiz Vieira / João do Vale

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Podemas

Devo dizer que sequei muito o Fluminense. Inquietava-me ver um time que poderia estufar o filó tantas vezes com beleza e precisão, como se sonha sempre ser possível, ficar perdido técnica e emocionalmente a ponto de tomar de quatro no Equador. Inquietava-me ver que a firula exata, a pintura do chute a gol e a emoção da idéia quando ginga de Dodô estavam no banco por conta de uma mistura improvável de arrogância e medo de Renato Gaúcho. Confiança não é soberba, e muito menos arrogância pública, diria Xico Sá. A vaga geometria em direção ao corredor e a paralela do impossível foram atropeladas por um time mediano. Detalhes do futebol, esse esporte do imprevisto. Mas sempre acho que os técnicos que querem ser mais do que o próprio jogo merecem perder. Tal como no famoso diálogo entre Degas e Mallarmé, no qual este afirma que a poesia é feita de palavras e não de idéias, o futebol é para quem joga e não para quem fala.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Toca da Raposa

Em 2007, a Volks faturou 21 bilhões de reais no Brasil, com crescimento de 33% nas vendas. Sabe-se que, se dependesse somente de suas vendas na América do Norte ou na Europa, a empresa alemã estaria no vermelho. Mesmo assim os descuidos com o consumidor brasileiro são enormes. Não podemos esquecer do caso "Fox", modelo produzido desde 2003, que apresenta defeitos como uma tal trava que serve para ampliar o espaço do bagageiro, mas também tem como virtude decepar os dedos dos desavisados que a acionam. Como se vê, o aumento da produção automobilística não causa só a amputação do tempo, mas também outras mutilações. E assim, seguimos: uma bancarrota blues da expansão da economia ...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Ponte Estaiada

Tudo muito alegórico: A ponte dos Frias é mais moderna que a dos Mesquitas, além de ser mais "importante": liga o bairro do Morumbi à avenida Jornalista Roberto Marinho, enquanto a dos Mesquitas não leva ninguém a lugar nenhum. Como se não bastasse, sob as pontes "correm" dois cães sem nenhuma pluma, dois rios podres que fedem e muito. Nas margens, um mar de carros parados.

Da amizade

Para ser amigo, é preciso antes comer um quilo de sal junto.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ousadia da alma

Na vida se aprende que as incertezas são maiores que qualquer certeza e que a indefinição é maior que as definições. Quando William Clark disse que a fé é ousadia da alma, talvez seja porque se lida na fé com o amorfo, com o indefinido, com a incerteza. Sabe-se que andar com fé não costuma faiá, como nos diz a canção, mas às vezes a fé quer ser tão singular que acaba por estrangular as outras possibilidades que a vida nos apresenta, as outras "fés". Talvez faça mal a fé, esta firme crença em algo para o qual não há nenhuma evidência, exatamente pelo fato de que quando há evidência não há fé, há um fato. Por aí, só há fé quando falta fato. Entre os atos, os fatos e a fé há algo de indefinível que queremos desesperadamente definir.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Parafraseando Romário

Se, ao entrevistar José Miguel Wisnik, Lillian Witte Fibe ficasse calada, certamente teria feito um soneto.

Veneno Remédio

A Holanda perdeu exatamente quando eu pensava em escrever sobre a beleza de seu futebol. Desde 74, a Holanda mostra ao mundo um futebol muito ofensivo e diferente da Europa. Um futebol de poesia, que insiste em ter um ponta direita e um ponta esquerda. Acho que eles ensinam - não tanto quanto antes - ao mundo pragmático que o futebol é mais do que o cálculo cego, além de que a "tradição" pode ser extremamente revolucionária. É triste tudo isso, pois ao passo que a Europa nos copia, nós os copiamos e tudo fica muito chato, previsível, oco.

Corona

Da minha mão o outono come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo volta à casca.

No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca fala a verdade.

Meu olho desce ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio-sangue da lua.

Ficamos entrelaçados à janela, eles nos olham da
[rua:
está na hora de saber!
Está na hora da pedra começar a florescer,
de um coração golpear a inquietude.
está na hora de ser hora.

Está na hora.

CELAN, Paul. "Ópio e Memória". In: Cristal. Tradução de Claudia Cavalcanti. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1999.

Parafraseando Oswald

Só a corrupção nos une: Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Festa do Boi

Salve o Morro do Querosene !

Uti Possidetis

Marco Aurélio Mello acha que a demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol é um absurdo. Se formos ao extremo, teremos que entregar o Rio de Janeiro aos Tamoios, afirmou o ministro, compreendendo os direitos dos arrozeiros. Se levarmos em consideração que ele não se arrepende de ter concedido habeas corpus a Cacciola, muito não podemos esperar.

Ideb

Se tristes são os resultados da Educação em São Paulo, o estado mais rico do país, o contentamento da secretária Maria Helena Guimarães de Castro certamente é muito mais. O problema não é que a Educação na administração tucana não dá certo. A questão é que ela é feita exatamente para dar errado. Seria o tal do choque de gestão ..?

Biocombustível

Sempre vislumbrei no álcool o futuro do Brasil.

Fogo Imigo

Denise Abreu faz jus ao palíndromo "TUCANO NA CUT".

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Inscrição


Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto do mar.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Livro Sexto". In: Poemas Escolhidos. Seleção de Vilma Arêas. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

As filhas de Loth



Lucas van den Leyden

Lot e as suas filhas

Hendrik Goltzius

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Leitores IV

Só se lê bem aquilo que é lido com algum propósito pessoal. Pode ser até com a intenção de adquirir poder. Pode ser até mesmo com ódio ao autor.

Paul Valéry

Leitores III

Ler é traduzir, pois a experiência de cada pessoa com o texto é exclusiva. Um mau leitor é como um mau tradutor: interpreta literalmente quando deveria parafrasear, e adota a paráfrase quando deveria interpretar literalmente. Para aprendermos a ler de uma forma mais crítica, a erudição, embora bastante útil, é menos importante que o instinto; há grandes eruditos que, como tradutores, mostraram-se fracos.

AUDEN, W.H. "Ler". In: A Mão do Artista. Tradução de José Roberto O'Shea. São Paulo: Siciliano, 1993.

Caetano Veloso, 'cavalo' padecente

TRISTE BAHIA


Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

(In: Gregório de Matos. Crônica do Viver Baiano Seiscentista. Obra Poética Completa. Códice James Amado. Vol. 1. Rio de Janeiro: Record, 1999).


terça-feira, 20 de maio de 2008

The gouffre de nosotros

A ô-posição quer fazer CPI, mas desejava que o depoimento de André Fernandes, assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), fosse secreto. Intentaram sem o menor pudor, como se entre uma atitude e outra não existisse um enorme abismo. André Fernandes recebeu o e-mail de José Aparecido Nunes com planilhas de gastos do governo FHC, o suposto dossiê, como ainda insiste a bolha. Muito bem. Além disso, sabe-se que Fernandes é um baqueano em CPIs e dava até palestras sobre o assunto. Não é possível a coincidência entre os dois fatos. Desse jeito, o Partidão da Imprensa vai se dar mal mais uma vez. Tal como José Agripino Maia. Ô, ô-posiçãozinha ...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Leitores II

Há os que lêem e logo em seguida esquecem; há os que leram, mas passam a vida citando o que outros leitores citam; há os que citam livros que nunca leram; e há também, este um tipo especial, os que relêem os livros que nunca leram.

Leitores I

Há três classes de leitores: o primeiro, o que goza sem julgamento; o terceiro, o que julga sem gozar; o intermédio, que julga gozando e goza julgando, é o que propriamente recria a obra de arte.
Goethe

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Mengão Bi

"Quem não se comunica, se trumbica!", dizia Chacrinha. É evidente que o bordão teve sentido oposto para o Fenômeno.

Voto Camarão

O que dizer de José Agripino Maia (DEM-RN) ? Dos porões da ditadura veio à tona uma entrevista em que Dilma Rousseff afirma ter mentido muito em interrogatórios na década de 70, nos quais estava sob tortura. Maia tenta intimidar a ministra e suscitar que ela também estava mentindo no Senado. Dilma reage: "Eu fui barbaramente torturada, senador" (...) "Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para torturadores compromete a vida de seus iguais, entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador, porque mentir na tortura não é fácil". Acho que não é preciso dizer mais nada. O que aconteceu só reforça a tese de que "o grande ícone da moral", título propagandeado pelo espetáculo midiático, não passa de um filhote da dita dura. Desta vez Jajá deixou rabo-de-palha.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Flor

A pedra.
A pedra no ar, que segui.
Teu olho, tão cego como a pedra.

Éramos
mãos,
esvaziamos a escuridão, encontramos
a palavra, que ascendia do verão:
flor.

Flor - uma palavra de cegos.
Teu olho e meu olho:
procuram
água.

Crescimento.
O coração: de parede a parede
se forma.

Uma palavra ainda, como esta, e os martelos
vibram ao ar livre.

CELAN, Paul. "Prisão da Palavra". In: Cristal. Tradução de Claudia Cavalcanti. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1999.

Investiment Grade

Hoje, o que acontece assusta. Disse João Cabral, no entanto, que a famosa frase de Adorno sobre o fim da poesia após Auschwitz era só uma boutade. Afinal, a arte sempre existiu e o mundo sempre foi violento. A poesia nasceu muito mais da infelicidade que da felicidade, diz Cabral. Mas a violência continua a assustar. De tão indômita, parece algo próprio de "nosso tempo". O mundo prometido em que a ciência e a democracia trariam níveis cada vez maiores de desenvolvimento técnico e moral não chegou. No capitalismo, a razão é só instrumental. Serve sempre a interesses escusos. A fuga do mito para soerguer a razão, como se sabe, nos levou aos campos de concentração. A razão dormiu. A razão teve insônia. E o que temos hoje, na verdade, são processos de controle cada vez mais elaborados. No supermercado, há placas que dizem: Sorria, você está sendo filmado. Quer dizer, não são mais necessários os antigos confinamentos. A prisão, a escola, o hospício, tudo está fora de moda. Em compensação, o capital cria outras formas de controle. Temos tornozeleiras ou coleiras eletrônicas que dispensam o modelo antigo. Elas são ligadas a um computador central, uma espécie de HAL, que nos elimina como indivíduo, deixando-nos sempre divíduos, sempre partidos. O controle começa já na produção, um controle, sobretudo, do corpo. Quanto mais técnica, mais controle e isso significa mais violência. E o que se vê são atos, que de tão estúpidos, parecem inexplicáveis. Talvez assim, poderíamos entender (ou desentender) o caso Isabella ou o do austríaco maluco. A maldade é fértil e engendra sempre maldade. Como nos lembra o indefectível Brás Cubas: O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Sabedoria Wikipédia

São Isidoro foi arcebispo de Sevilha, considerado um dos grandes eruditos e o primeiro dos grandes compiladores medievais. Sua obra influenciou largamente toda a produção intelectual na Espanha medieval. Isidoro nasceu na cidade de Cartagena, Espanha, de uma família influente que foi crucial para as manobras político-religiosas que levaram os reis visigodos a converter-se do arianismo ao catolicismo. Diversos de seus familiares foram canonizados. Foi canonizado em 1598, e em 1722 o papa Inocêncio XIII o declarou Doutor da Igreja.

É considerado, hoje, patrono dos bons usuários da Internet.


San Isidoro de Sevilla

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Lorenzetti hoje é marca de chuveiro


Pietro Lorenzetti

Casas Abadía

A sede de consumir no Bazar era muito grande. Comparada com a que o megatraficante tinha para vender pó e organizar o tráfico. Entranhos e diferentes eram os desejos de quem foi ao Jockey. Havia os que queriam comprar eletrodomésticos, outros, brinquedos e muitos outros estavam ansiosos por sofás, aparelhos de jantar e quadros. Tudo com 70% de desconto. Mas havia também os que estavam interessados em objetos superpessoais de Juan Carlos Ramírez Abadía, como roupas, sapatos e até mesmo cuecas. Muitos interesses em um mesmo lugar, com algumas intersecções. E talvez a maior seja: Comprai os bens e não olhai de quem. É certo que caminhamos cada vez mais para que a sede consumir caminhe por nós.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Chelsea 2 x 0 Fenerbahce

Infelizmente deu zica.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Paluchiamento

Dados da Casa Civil vazam. Trata-se de um dossiê, como a bolha insiste. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) confirma ter tido acesso aos dados, mas ressalta que não tem responsabilidade alguma quanto ao vazamento à imprensa. O destino dos dados é logo a Veja. O leitor há de convir que só podem estar vendendo Curimatá. E a qualquer preço ...

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Dossiê


O real é oco, coxo, capenga.
O real chapa.

SALOMÃO, Waly. "Persistência do Eu Romântico". In: Algaravias. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Res, non verba

Quanta bobagem neste tal caso do dossiê. Quanta celeuma por nada. É fácil perceber que o único objetivo da ô-posição é minar mais um ministro do governo Lula. É fato que a intelligentsia petista tem o mau hábito de dar tiros no pé. Mas fica claro também que a "oposição" quer uma cabeça a qualquer custo, seja a da ministra Dilma, ou de Erenice ou de Berenice. Não importa. Alguém tem que cair. Bastou o presidente Lula enfatizar o papel de Dilma como "mãe" do PAC para os adversários tramarem ferozmente contra ela. No entanto, os fatos insistem em contradizer o paluchiado. Enquanto o DEMo e o PSDB metralham o governo, Lula obtém a sua maior avaliação, 55%: trata-se de um recorde, tanto nos cinco anos de governo, quanto na comparação com os antecessores. A estratégia da "oposição" é sempre sabida demais. Aguardemos os próximos capítulos. O fato, este sim um fato, é que a chapa demotucana mostra cada vez mais que tem medo. E muito medo. Para não esquecermos jamais de Regina Duarte.

Negativi

César Vaia foi à Bahia pedir ajuda aos orixás. Deram-lhe vatapá, caruru e mungunzá. Mas nada de solucionar a epidemia no Rio de Janeiro. Parece que quando é desse jeito, nem os orixás metem a mão (sem trocadilho, é claro) ...

quinta-feira, 27 de março de 2008

Chic no úrtimo

Antes exportávamos putas, travestis e jogadores de futebol. Agora exportamos também cafetinas. O leitor há de convir que se trata de um enorme avanço ...

Rio 40º

O Aedes Aegypti tem partido no Rio de Janeiro. Segundo o Datamaia, somente uma pessoa morreu em hospital municipal. E isto é quase um orgulho para o prefeito. Só nos resta lembrar que, de fato, "Nosso Tempo" é tempo de partido, tempo de homens partidos.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Semana Santa

Contam-me os mais velhos que nesta semana era proibido comer carne, ingerir bebidas alcoólicas, arrumar a casa e, em alguns casos, até tomar banho. Tanto era o respeito pelo “simbolismo religioso”. E ai de quem não cumprisse o receituário ! Hoje, quando se sabe que a idéia de Deus é um tanto vaga, pois o que vale mesmo é o consumismo desenfreado, tudo isso é ruína e parece não fazer o menor sentido. A religião tornou-se uma mercadoria como outra qualquer. Nosso deus é ainda mais invisível que um "Deus" e responde pelo nome de "mercado".

Cartões Corporativos

"O Fla-Flu surgiu quarenta minutos antes do nada".

terça-feira, 18 de março de 2008

Linha de Passe

Uma das maiores contradições do futebol brasileiro diz respeito ao constante embate talento x organização. É como se estivéssemos condenados a sempre superar todos os obstáculos com os matreiros da maravilha, em fulgurantes momentos de total magia. Proveniente desta, outras contradições aparecem. É notório que, desde Telê Santana, a maior parte de nossos técnicos são "homens sérios", respeitadores de esquemas táticos rigorosos, compreendidos como a única forma de "vencermos", sobretudo, após as fracassadas campanhas de 82 e 86. Afinal, no futebol de hoje, ninguém é bobo, repetem os sábios da bola. É como se, para equilibrarmos nosso talento a uma suposta racionalidade do jogo, tivéssemos que obrigatoriamente ter como comandante maior os Lazaronis, Parreiras, Zagallos, Felipões e Dungas da vida. Tudo para colocar ordem na casa. Criou-se uma falsa dicotomia entre "vencer" e "jogar bem": dentro de um raciocínio primário, pensa-se que, ao jogar bonito, fatalmente a equipe está fadada a perder. E nem se pode dizer que a diferença é o fato de o futebol atual ser mais pragmático. Ora, o pragmatismo de antes era o gol e as partidas terminavam com o placar sempre elástico. Já o pragmatismo de hoje redunga em resultados magros e jogos enfadonhos. Não é este o xis. Mas, que a beleza no futebol de hoje reserva-se às entrelinhas, somente aqui e acolá, parece ser algo realmente indiscutível. O sentimento é de gol anulado: com ótimos jogadores, conseguimos apenas times medianos. Nada me aborrece mais do que justificar esse procedimento tosco a partir da derrota do time de Telê. Cheira a maldade e mediocridade.


Segue abaixo o famoso ensaio de Pier Paolo Pasolini sobre o futebol da Itália e do Brasil na Copa de 70. Apesar do tempo, acredito que o texto é ainda atual ...

O gol fatal


Em meio ao debate atual sobre os problemas lingüísticos que separam artificialmente literatos de jornalistas e jornalistas de jogadores, fui indagado por um gentil repórter do "Europeo"; mas as minhas respostas saíram cortadas e depauperadas no tablóide (por causa das exigências jornalísticas!). Porém, como o assunto me interessa, gostaria de voltar a ele com mais calma e com a plena responsabilidade sobre aquilo que digo.O que é uma língua? "Um sistema de signos", responde do modo hoje mais exato um semiólogo. Mas esse "sistema de signos" não é apenas, necessariamente, uma língua escrita-falada (esta que usamos agora, eu escrevendo e você, leitor, lendo).Os "sistemas de signos" podem ser muitos. Tomemos um caso: eu e você, leitor, estamos numa sala onde também estão presentes [o jornalista e ex-porta-voz do presidente italiano Alessandro Pertini, Antonio] Ghirelli e [o jornalista esportivo da Itália Gianni] Brera, e você quer me dizer algo sobre Ghirelli que Brera não deve ouvir. A situação impede que você me fale por meio do sistema de signos verbais, e então é preciso recorrer a um outro sistema de signos, por exemplo, o da mímica; aí você começa a revirar os olhos, a entortar a boca, a agitar as mãos, a ensaiar gestos com os pés etc.Você é o "cifrador" de um discurso "mímico" que eu decifro: isso significa que possuímos em comum um código "italiano" de um sistema de signos mímico.

Pintura, cinema e futebol

Outro sistema de signos não-verbal é o da pintura; ou o do cinema; ou o da moda (objeto de estudo de um mestre nesse campo, Roland Barthes) etc. O jogo de futebol também é um "sistema de signos", ou seja, é uma língua, ainda que não-verbal. Por que digo isso (que em seguida pretendo desenvolver esquematicamente)? Porque a "querelle" que contrapõe a linguagem dos literatos à dos jornalistas é falsa. E o problema é outro.Vejamos. Toda língua (sistema de signos escritos-falados) possui um código geral. Tomemos o italiano: usando esse sistema de signos, eu e você, leitor, nos entendemos porque o italiano é um patrimônio nosso, comum, "uma moeda de troca". Entretanto cada língua é articulada em várias sublínguas, e cada uma destas possui, por sua vez, um subcódigo: os italianos médicos se compreendem entre si -quando falam o jargão especializado- porque todos eles conhecem o subcódigo da língua médica; os italianos teólogos se compreendem entre si porque detêm o subcódigo do jargão teológico etc. etc.A língua literária é também uma língua de jargão, com um subcódigo próprio (em poesia, por exemplo, em vez de dizer "speranza" é possível dizer "speme", mas nós não estranhamos essa coisa engraçada porque se sabe que o subcódigo da língua literária italiana demanda e admite que, em poesia, sejam usados latinismos, arcaísmos, palavras truncadas etc. etc.).O jornalismo não é senão um ramo menor da língua literária: para compreendê-lo, valemo-nos de uma espécie de sub-subcódigo. Em palavras pobres, os jornalistas são simplesmente escritores que, a fim de vulgarizar e simplificar conceitos e representações, se valem de um código literário, digamos -para ficarmos no campo esportivo-, de segunda divisão. Assim a linguagem de Brera é de segunda divisão se comparada à linguagem de Carlo Emilio Gadda [escritor italiano, 1893-1973] e de Gianfranco Contini [crítico literário].E a língua de Brera é, talvez, o caso mais bem qualificado do jornalismo esportivo italiano.Portanto não existe conflito "real" entre escritura literária e jornalística: o problema é que esta, coadjuvante como sempre foi, agora exaltada por seu uso na cultura de massa (que não é popular!), encampa pretensões um tanto soberbas, de "parvenu". Mas vamos ao futebol.O futebol é um sistema de signos, ou seja, uma linguagem. Ele tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquela que imediatamente tomamos como termo de comparação, isto é, a linguagem escrita-falada.

"Podemas"

De fato as "palavras" da linguagem do futebol são formadas exatamente como as palavras da linguagem escrita-falada. Ora, como se formam estas últimas? Formam-se por meio da chamada "dupla articulação", isto é, por infinitas combinações dos "fonemas" -que, em italiano, são as 21 letras do alfabeto.Os "fonemas" são, pois, as "unidades mínimas" da língua escrita-falada. Se quisermos nos divertir definindo a unidade mínima da língua do futebol, podemos dizer: "Um homem que usa os pés para chutar uma bola". Aí está a unidade mínima, o "podema" (se quisermos continuar a brincadeira). As infinitas possibilidades de combinação dos "podemas" formam as "palavras futebolísticas"; e o conjunto das "palavras futebolísticas" constitui um discurso, regulado por normas sintáticas precisas.Os "podemas" são 22 (mais ou menos como os fonemas): as "palavras futebolísticas" são potencialmente infinitas, porque infinitas são as possibilidades de combinação dos "podemas" (o que, em termos práticos, equivale às passagens da bola entre os jogadores); a sintaxe se exprime na "partida", que é um verdadeiro discurso dramático.Os cifradores desta linguagem são os jogadores; nós, nas arquibancadas, somos os decifradores: em comum, possuímos um código.Quem não conhece o código do futebol não entende o "significado" das suas palavras (os passes) nem o sentido do seu discurso (um conjunto de passes).Não sou nem Roland Barthes [1915-1980] nem Greimas [lingüista, 1917-92], mas, como diletante, se quisesse, poderia escrever um ensaio sobre a "língua do futebol" bem mais convincente do que este artigo. Aliás, penso que se poderia escrever um belo ensaio intitulado "Propp Aplicado ao Ludopédio", já que, naturalmente, como qualquer língua, o futebol tem o seu momento puramente "instrumental", rígida e abstratamente regulado pelo código, e o seu momento "expressivo".Pouco antes, disse que toda língua se articula em várias sublínguas, cada qual com um subcódigo.Pois bem, com a língua do futebol também é possível fazer distinções desse tipo: o futebol também possui subcódigos, na medida em que, de puramente instrumental, se torna expressivo.Há futebol cuja linguagem é fundamentalmente prosaica e outros cuja linguagem é poética. Para explicar melhor a minha tese, darei -antecipando as conclusões- alguns exemplos: [o meio-de-campo italiano] Bulgarelli joga um futebol de prosa, é um "prosador realista"; Riva [maior goleador da história da seleção italiana] joga um futebol de poesia, é um "poeta realista".Corso joga um futebol de poesia, mas não é um "poeta realista": é um poeta meio "maudit", extravagante.

Prosa e poesia

[Gianni] Rivera [meio-campista italiano que disputou a final da Copa de 1970, contra o Brasil] joga um futebol de prosa: mas sua prosa é poética, de "elzevir".Também Mazzola [João José Altafini. Jogou pelo Palmeiras e pela seleção brasileira, sendo campeão em 1958. Depois se transferiu para a Itália e se naturalizou italiano, chegando a jogar pela seleção na final da copa de 70 contra o Brasil] é um prosador elegante e poderia até escrever no "Corriere della Sera", mas é mais poeta que Rivera: de vez em quando ele interrompe a prosa e inventa, de repente, dois versos fulgurantes.Note-se que não faço distinção de valor entre a prosa e a poesia; minha distinção é puramente técnica.Entretanto nos entendamos. A literatura italiana, sobretudo a mais recente, é a literatura dos "elzevires": os escritores são elegantes e, no limite, estetizantes; a substância é quase sempre conservadora e meio provinciana... Em suma, democrata-cristã. Todas as linguagens faladas em um país, mesmo as mais especializadas e espinhosas, têm um terreno comum, que é a cultura desse país: a sua atualidade histórica.
Assim, justamente por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de gol. Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento, [Giuseppe] Savoldi [jogador do Bolonha, do Nápoli e da seleção italiana] é o melhor poeta. O futebol que exprime mais gols é o mais poético.O drible é também essencialmente poético (embora nem sempre, como a ação do gol). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso. Mas nunca acontece. É um sonho (que só vi realizado por Franco Franchi [1922-92, um dos principais nomes do cinema cômico italiano] nos "Mágicos da Bola", o qual, apesar do nível tosco, conseguiu ser perfeitamente onírico).Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia -e, de fato, está todo centrado no drible e no gol.A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contrapé seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e gol; ou passe inspirado).O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o gol é confiado à conclusão, possivelmente por um "poeta realista" como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo coletivo, fundado por uma série de passagens "geométricas", executadas segundo as regras do código (nisso Rivera é perfeito, apesar de Brera não gostar, porque se trata de uma perfeição meio estetizante, não-realista, como a dos meio-campistas ingleses ou alemães).O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da "prosa coletiva"): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas em sentido puramente técnico, no México [em 1970] a prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira.

sábado, 15 de março de 2008

Fora de Ordem

Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Arte de Tulípio


sexta-feira, 7 de março de 2008

Encerramento e Gran-Finale

Nada te sucederá
Porque inerme deste o teu afeto
Nos socos do coração
Te levarei
Nas quatro sacadas fechadas
Do coração

Deixei de ser o desmemoriado das idades de ouro
O mago anterior a toda cronologia
O refém de Deus
O poeta vestido de folhagem
De cocos e de crânios
Alba
Alfaia
Rosa dos Alkmin
Dia e noite do meu peito que farfalha

A teu lado
Terei o mapa-múndi

Em minhas mãos infantes
Quero colher
O fruto crédulo das semeaduras
Darei o mundo
A um velho de juba
A seu procurador mongol
E a um amigo meu
Com que pretenderam
Encarcerar o sol

Viveremos
O corsário e o porto
Eu para você
Você para mim
Maria Antonieta d´Alkmin

Para lá da vida imediata
Das tripulações de trincheira
Que hoje comigo
Com meus amigos redivivos
Escutam os assombrados
Brados de vitória
De Stalingrado

São Paulo - dezembro de 1942

ANDRADE, Oswald de. "Cânticos dos Cânticos para Flauta e Violão". In: Cadernos de Poesia do Aluno Oswald (Poesias Reunidas). São Paulo: Círculo do Livro, s/d.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Não existe pecado do lado de baixo do Equador

Uribe, Chávez e Correa aparentemente se acalmaram. Intriga ainda o fato de a OEA não condenar diretamente a Colômbia pela invasão ao Equador. Agora, se a guerra fosse declarada, certamente não fugiria à luta, mas trataria de salvar a mi-carême ...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Trazer agora o futuro para já

A verdade tem seu tempo e o tempo, suas verdades. Se eu dissesse que meu esforço é trazer agora o futuro para já, isso tem muitos desdobramentos. Se fosse frase de Clarice seria a busca de um instante-já. Mas se fosse pronunciada hoje, anonimamente, poderia ser tão melancólica que melhor seria não dizer nada. Quando digo "farei", "verei", "gozarei", tudo isto é dito num presente, é claro. Mas esse “trazer o futuro para o presente” pode ser duplicado, pois parece que hoje o futuro já não vem, ele é sempre adiado e o que resta é um eterno e não terno presente que perece e não passa. O futuro não vem porque já é. E continuará. Talvez quiséssemos palavras mais exatas, mas elas não nos bastam. Incharam de tão vazias. Se fossem onomatopéias, imitariam outro som, e se isto não é suficiente seria pelo menos um indício, uma metáfora, outras palavras, um outro. É preciso dizer que a verdade pode ser também atemporal, tal como o tempo tem das suas mentiras. Entre um e outro, jogo de xadrez com a morte, vivemos.

Colisão de paralelas

A presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara ficará com o deputado Pompeu de Mattos (PDT-RS), conhecido por pertencer à "bancada da bala".

terça-feira, 4 de março de 2008

Vacas Magras

Milton Neves acertou em cheio quando apelidou Robinho de Róbson Arantes do Nascimento. Sobretudo quando se percebe que o Santos tem hoje as viúvas do Robinho tal como teve outrora as viúvas do Pelé.

Em terra de cego ...

Mesmo depois de muitas feijoadas, o "Fenômeno" se tornou em 2006 o maior artilheiro de todas as Copas. Os craques são assim. Sem a forma física ideal, conseguem na malícia da maestria e no visgo do improviso decidir uma partida. Contudo, a limitação física de Ronaldo era algo muito real. Fazia-se necessário, portanto, um companheiro de ataque lépido e habilidoso, no caso, Robinho. Mas a dupla Gagueira-Zégalo não via assim. Ambos achavam que Adriano era a melhor opção. Deu no que deu ... O Rancho Nordestino se tornou então o palco triste da derrota do Brasil. Vimo-lo cheio e logo depois vazio, às moscas. Devo dizer, entretanto, que l'Imperatore jamais me enganou. E se observarmos bem o ataque da Azzurra nas últimas competições, saberemos por que o apelido foi conferido tão prontamente pela imprensa italiana. No São Paulo Adriano dá mostras de que é um jogador normal, de clube, no máximo um bom jogador, como tantos e tantos outros.

51

Flagrado em conversa comprometedora, o ex-deputado Gilberto Gonçalves (PTN-AL) reconhece que a busca pelo poder não dá em nada. Desiludido, ele afirma: "a política foi uma cachaça que tomei". Certamente não foi das melhores ...

Gandavo

Na latumia da folha o exemplo maior de "fundação" se limita a Brasília. No túmulo do samba, por certo, tudo ocorre às mil maravilhas ...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Clarice Anas

"a explicação de um enigma é a repetição do enigma. O que És? e a resposta é: És."

Tulípio é do Quarto Setor


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Paluchiado

Alguns budejos. Mais não prometo aos meus possíveis cinco leitores. Sem utilidades profissionais, será somente feixe de palavras. Claro que com fulerages, furupas e frepas. Mas chega disso, menino ! Declaração de intenções parece não ser bom presságio. E se fosse prefácio - não é o caso - a solução seria passar rápido, como se sabe. Assim o faço.