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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Esperando Godot


A primeira montagem profissional de Esperando Godot no Brasil aconteceu em 1969. Cacilda Becker interpretava Estragon e Walmor Chagas, Wladimir. A montagem foi marcada desde o seu pioneirismo até o fato emblemático de Cacilda sofrer um aneurisma no intervalo da peça e morrer pouco depois.

Para Walmor, Godot foi importante pela percepção central de que a humanidade está em espera: Além de frisar que a peça é “basicamente sobre o desespero, a miséria do homem sem Deus”, Chagas deixa bem claro também, ao contrário do que muitos pensaram, que a encenação, politicamente, era muito mais do que uma resposta direta à ditadura brasileira, que acabara de instituir o AI-5. Estava em jogo, sobretudo, a própria grandeza “ do texto”.

Walmor acreditava ser um ator devoto das palavras. Curioso, mas Beckett propunha que o caminho da literatura seria a despalavra, justamente porque a palavra em suas narrativas é problematizada não comomeio”, mas também comomaterial”.

Carentes de ações e contemplações, aguardamos os mais variados vislumbres. Terrível hodierno - nada acontece - mesmo com as mãos nervosas de todos os repórteres que tentam, em vão, transformar pífios acontecimentos em notícias. Como dizia Valéry, os fatos enfadam; como espuma, estão longe da desejada amplitude do mar

terça-feira, 8 de junho de 2010

Consolo na Praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. In: Poesia Completa. Volume Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2002.

sábado, 29 de maio de 2010

Do rigor da lei

Tudo o que é científico ou que tem valor de lei geralmente é considerado como a mais pura expressão de civilidade, justiça e verdade. Embora esta afirmação seja bastante razoável por um determinado ponto de vista, não consigo me apegar a ela, pois considero a lei muitas vezes a supressão máxima da individualidade em favor de um mecanismo já pronto e que supostamente serve para toda a coletividade. Não, raro leitor, não defendo aqui o famoso "jeitinho brasileiro". Muito menos trato de alguma tese que fale sobre qualquer sentimento de "sobranceria". Para explicar-me, comentarei uma situação que sempre me traz reflexões interessantes, mesmo sendo realmente banal. Trata-se daquilo que certa vez um poeta chamou, sabiamente, de "sublime cotidiano". Ei-la: por andar sem carro nas madrugadas desta Pauliceia Desvairada, recorro sempre aos ônibus e, mais raramente, ao táxi. Portanto, em situação de emergência, já precisei muitas vezes dar sinal ao motorista fora do ponto. Ora, a lei não especifica horário para seu cumprimento. É lei e ponto final. Já experimentei as duas possíveis reações dos condutores. Quando passam direto, mesmo sabendo que não há mais veículos em circulação ou que esperarei um bom bocado por outro, sei que estão cumprindo a lei, à risca. Seguro-me para não xingá-los, pois eles estão certos: cumprem simplesmente o que já está estipulado como regra. Quando param, mesmo que bem longe do ponto, admiro a sensibilidade humana, a capacidade de transgredir a lei em prol de alguém que, já meio bêbedo, está precisando de uma cama. E sempre penso, com muita convicção, que eles também estão, sobretudo, certos.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Desfile

Estou perdido na névoa,
na ausência, no ardor contido.
O mundo me chega em cartas.
A guerra, a gripe espanhola,
descoberta do dinheiro,
primeira calça comprida,
sulco de prata de Halley,
despenhadeiro da infância.
Mais longe, mais baixo, vejo
uma estátua de menino
ou um menino afogado.
Mais nada: o tempo fluiu.
No quarto em forma de túnel
a luz veio sub-reptícia.
Passo a mão na minha barba.
Cresceu. Tenho cicatriz.
E tenho mãos experientes.
Tenho calças experientes.
Tenho sinais combinados.
Se eu morrer, morre comigo
um certo modo de ver.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. In: Poesia Completa. Volume Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2002.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Carta ao Homem do Povo Charlie Chaplin

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duas horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados,
os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irreponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. In: Poesia Completa. Volume Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2002.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Rio 40º

O Aedes Aegypti tem partido no Rio de Janeiro. Segundo o Datamaia, somente uma pessoa morreu em hospital municipal. E isto é quase um orgulho para o prefeito. Só nos resta lembrar que, de fato, "Nosso Tempo" é tempo de partido, tempo de homens partidos.