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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

As novas viúvas do neoliberalismo

publicado na Folha de São Paulo em 09.09.2010


A queda do Muro de Berlim ainda deixa sequelas em gente que se dizia comunista. Parece que os tijolos que separavam dois mundos continuam desabando e provocando desorientação mental, política e ideológica. Com as pesquisas apontando vantagem da candidata do PT, crescem o desespero e as tentativas de manipulação e distorção da realidade. Prática do período stalinista que encontra espaço na atual oposição brasileira, que reúne tucanos, demos e antigos esquerdistas.

Só assim se explica o texto do ex-deputado Roberto Freire publicado nesta Folha (“Não ao “dedazo” de Lula”, 25/8), no qual abusa de uma retórica conservadora e incorpora o linguajar de parte da mídia e das cassandras que anunciam o fim da democracia no Brasil. Repete mantras da oposição, com a tentativa de colocar a eleição de Dilma como suposto risco à democracia, o “perigo” de instalação de “partido único” e a criação de “república sindical”. Isso relembra as bandeiras dos golpistas de 1964 e as vivandeiras de quartel. Ora, o processo de consolidação da democracia no Brasil relaciona-se com o papel da nova esquerda no Brasil e sua participação na construção do PT. Um partido surgido diante da incapacidade do PCB de criar uma perspectiva consistente de representação para os trabalhadores do Brasil.

Na origem, o PT se caracterizou pela adoção de métodos democráticos de organização, em contraposição ao velho e acomodado “peleguismo” e à burocracia sindical da qual o PCB era cliente. Com o PT, são três décadas de construção paulatina da democracia no Brasil, numa trajetória marcada por defesa dos direitos sociais, dos interesses nacionais, do desenvolvimento e da integração latino-americana. O tempo, os acertos táticos, a capacidade de elaboração e de articulação confirmaram a importância histórica do projeto do PT. No período, o PT refletiu e mudou, mas nunca mudou de lado, como mostram as conquistas do governo Lula.

O PT não é dono do movimento sindical, como diz o ex-comunista.

No país, há pelo menos seis centrais sindicais que disputam entre si a hegemonia do movimento. Nosso partido faz parte de um campo democrático e popular, com partidos de esquerda, do centro e até partes de legendas de direita, que, por sinal, foram acolhidas pela articulação política que ele defendia como aliado no Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo. 

Quando tucanos falavam que teriam três décadas de poder, o articulista não se preocupou com o teor mexicanizado da proposta. Diferentemente da visão míope da oposição, o Brasil se consolida como emergente democracia, com distribuição de renda, melhorias sociais e fortalecimento das instituições. Atuam com independência o Ministério Público, o Poder Judiciário e a máquina de Estado. Tristemente, parcela de um partido que um dia propôs transformações sociais hoje se tornou coadjuvante da direita brasileira. Transformou-se o velho PCB em sigla de aluguel, que atende pelo nome de PPS e passou a viver de sinecuras na burocracia do governo tucano.

É um fim melancólico das novas e recentes viúvas do neoliberalismo, que, incapazes de apresentar um projeto para o Brasil, se dedicam ao ofício de caluniar e difamar um governo bem-sucedido, que tem o apoio de esmagadora maioria da população e um reconhecimento internacional unânime. Está na hora do surgimento de uma oposição democrática no Brasil conduzida por pessoas mais qualificadas.

FERNANDO FERRO, 59, engenheiro eletricista, deputado federal pelo PT-PE e candidato a novo mandato, é líder do partido na Câmara dos Deputados e vice-presidente da Comissão de Energia e Minas do Parlamento Latino-Americano (Parlatino).

Ora, ora

 Publicado na Folha de S.Paulo, sexta-feira, 20 de março de 1964

A disposição de São Paulo e dos brasileiros de todos os recantos da patria para defender a Constituição e os principios democraticos, dentro do mesmo espirito que ditou a Revolução de 32, originou ontem o maior movimento civico já observado em nosso Estado: a "Marcha da Familia com Deus, pela Liberdade". 

Com bandas de musica, bandeiras de todos os Estados, centenas de faixas e cartazes, numa cidade com ar festivo de feriado, a "Marcha" começou na praça da Republica e terminou na praça da Sé, que viveu um dos seus maiores dias. Meio milhão de homens, mulheres e jovens - sem preconceitos de cor, credo religioso ou posição social - foram mobilizados pelo acontecimento. Com "vivas" à democracia e à Constituição, mas vaiando os que consideram "traidores da patria", concentraram-se defronte da catedral e nas ruas proximas. 

Ali, oraram pelos destinos do país. E, através de diversas mensagens, dirigiram palavras de fé no Deus de todas as religiões e de confiança nos homens de boa-vontade. Mas, tambem de disposição para lutar, em todas as frentes, pelos principios que já exigiram o sangue dos paulistas para se firmarem.

(Do Blog de Luís Nassif)

domingo, 22 de agosto de 2010

Avesso do avesso

“Tentativa do tucano José Serra de se associar a Lula na propaganda eleitoral é mais um sinal da profunda crise vivida pela oposição”. A frase não é minha, mas do editorial da Folha deste domingo. Ferreira Gullar escreveu sobre as touradas, lembrando-se de João Cabral. O Globo traz como manchete: "Bandidos invadem hotel no Rio e fazem reféns". A Éporca tem como matéria principal a indicação das 100 melhores empresas para se trabalhar. A Folha, sorumbática, salienta que Lula prepara ofensiva em São Paulo. Desesperados, tentam manter a última trincheira.

sábado, 21 de agosto de 2010

Tórax de Superman

- Globo: Governo Lula não mudou a calamidade no saneamento

- Folha: Dilma dispara, dobra vantagem e venceria Serra no 1 º turno

- Estadão: No País, 34,8 milhões de pessoas vivem sem coleta de esgoto

- JB: Lentidão no avanço do saneamento


Essas são as manchetes de sábado. Os jornalões esperam Godot. Um super-tucano com especiais poderes para os salvar da terrível e demoníaca ameaça. O dá demonstrações de faiblesse. Quer substituir o Silva embalado por churrasquinhos na laje, pagode e, pasmem, raros leitores, tentando colar-se à imagem de Lula. Aguardo a coluna do poeta Ferreira Gullar na Folha de amanhã. 

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Vice (Genérico do Aécio)

De Marcelo Coelho, Folha de São Paulo, 7 de julho de 2010.

Alguns dias a mais, e o próprio Dunga poderia ter sido cogitado. Aplaudiram-no em sua volta ao país; é popular; é sério; é realista; sua ficha, ao que consta, é limpa; veste-se com apuro, não gosta de demagogia e já não promete muita coisa. Ademais, Dunga não deve ter críticas à exploração do pré-sal, nunca falou em plebiscito sobre a pena de morte, e há de considerar radical demais a proposta de multar os cidadãos que deem esmolas na rua. Três pontos que o tornam mais moderado, ou menos exótico, do que Índio da Costa.

Multar quem dá esmolas! Em matéria de Estado policial, creio que nunca se imaginou ameaça tão severa contra as classes privilegiadas. Brincadeiras à parte, o problema da escolha de um vice nunca é fácil de resolver. Há sempre a questão dos palanques estaduais, o tempo na TV, a composição com os demais partidos da aliança.

Provavelmente, tudo ficou mais complicado para o PSDB por alguns motivos de ordem política e outros de ordem pessoal. Passo rapidamente pela questão política. A candidatura Serra hesita entre a identidade puramente oposicionista (Álvaro Dias reforçaria isso) e o perigo de confrontar-se com a popularidade de Lula. A situação partidária força uma aliança à direita (Dornelles e Kátia Abreu seriam os nomes adequados), mas o clima predominante é redistributivista e pró-Estado, e o próprio Serra se sente desconfortável quando levado a defender o oposto.

O vice do tucano, assim, teria de ser precisamente alguém que não significasse nada, que não inclinasse a balança para nenhum lado. A questão não é apenas política, mas também pessoal. Fulano? Não suporta Serra. Beltrano? Serra não o engole. Ninguém é bom o bastante para que Serra o aceite, e ninguém é tão ruim que não possa rivalizar com ele.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Virada

Queria escrever algo sobre a Virada Cultural, evento de que não participei. Mas o texto de Mário Bortolotto, publicado na Folha de São Paulo de hoje (17/5/2010), já disse tudo. O que sobra é calar. Não com a boca cheia de feijão, como na música de Chico Buarque, nem como o "estranho" silêncio da mesma Folha de São Paulo diante da pesquisa do Vox Populi em que Dilma Rousseff aparece pela primeira vez à frente de José Serra. Trata-se de outro silêncio. Aquele que nos faz refletir para nos colocarmos na direção de passos novos, o que de resto deve ser sempre a nossa procura. Mas paro por aqui, pois muitas vezes o "viver não é preciso", não cabe, infelizmente, e somos obrigados a navegar em mares conhecidos e um tanto tortuosos. Eis o texto:

O desespero da diversão incomoda

E algo me dizia que não devia ou que não conseguiria. Quando me pediram pra escrever um texto com minhas impressões sobre a Virada, pensei: "Mas eu vou participar disso?" Saí anteontem de casa por força de compromissos profissionais. Tinha um show pra fazer com a banda Saco de Ratos e uma apresentação da peça "Música para Ninar Dinossauros". Não fosse por esses compromissos, não teria colocado o nariz pra fora do meu "bunker-kitchenette" nem para aspirar o doce ar da noite paulistana (e isso não é nenhuma ironia), que anteontem estava por demais aflitiva, aumentando em escalas assustadoras minha crescente agorafobia.
Talvez ainda esteja longe de me tornar um antissocial, mas tenho de confessar que já não me sinto à vontade em lugares apinhados, mesmo sabendo que tenho de atravessar o viaduto do Chá na hora do rush três dias por semana. Acho que a Virada tem tido um efeito positivo nas pessoas que assistem aos shows -e também nos artistas que trabalham. Então, este não é um texto antiVirada. É simplesmente minha "trip" personalíssima e atual.
Minha retirada exclusivamente voluntária se baseia na ideia de que não consigo me divertir onde muitas pessoas buscam desesperadamente fazer o mesmo. E é justamente esse "desespero" que me incomoda. A diversão não me incomoda, muito pelo contrário. Gosto de me divertir e gosto de ver as pessoas se divertindo. Mas o desespero me incomoda, e a alegria se revela paradoxal, como se fosse necessário assistir a todos os shows, beber todas as cervejas e estar onipresente nos lugares. E, obrigatoriamente, se divertindo muito. Essa é a regra, não é?
Me parece um reflexo do tipo de aflição que nos persegue atualmente. Nossos trabalhos são tão chatos, nossas opções de vida se mostraram tão insatisfatórias e a diversão é tão rara que agora nos sentimos obrigados a usufruir da maneira mais violenta possível nas ocasiões em que ela se manifesta.
Foi o que melancolicamente senti anteontem à noite enquanto procurava desviar da multidão apressada para proteger meu braço recém-operado e revestido de titânio. Vendo as pessoas tomadas por uma alegria forçosamente intensa e por uma espontaneidade que me remete a festas lisérgicas, fui ficando irreversivelmente desanimado. Minha alma frouxa foi se acabrunhando de maneira terrível, e tudo o que eu queria era alguma espécie de fuga, um retiro voluntário, um exílio pré-determinado. Algum tipo de paz.

Coliseu moderno
Talvez tenha a ver com a idade, ainda preciso pensar nisso, pra não parecer leviano com minhas próprias atitudes. Mas enfim: o que sei é que talvez seja necessário fazer uma reflexão maior. Hoje, nós temos os quatro dias de Carnaval, o futebol de domingo, o chope do sábado à tarde. Na Roma Antiga, era o Coliseu, uma espécie de válvula de escape da multidão que, pelo menos em uma hora ou duas, se sentia aliviada vendo leões devorando cristãos ou gladiadores tendo as cabeças decepadas. Não vou simplesmente virar meu polegar pra baixo ao falar da Virada, mas também não vou fazer o sinal de positivo. Continuo achando que há algo estranho numa sociedade que precisa "desesperadamente" se sentir aliviada e feliz por algumas horas. Não deveria esse ser um direito nosso o ano todo?


Mário Bortolotto é ator, diretor e dramaturgo; em dezembro de 2009, foi baleado num assalto a um teatro na praça Roosevelt, centro de São Paulo

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Cracolândia e a Folha de São Paulo

Prezados moradores e vizinhos de Campos Elíseos,
Já não sem tempo, o editorial da Folha de S.Paulo de hoje retoma o assunto da cracolândia e o fechamento de cursos médios do Liceu Coração de Jesus!
Sem dúvida, a imprensa (talvez, melhor ainda, a mídia) teria uma importante função social ao denunciar e cobrar do Poder Público as ações que nós, meros moradores do bairro, e sem voz, há muito vimos cobrando e denunciando.
Esse editorial, no entanto, requentando tudo o que já sabemos à exaustão, parece mais uma resposta “oficial” dos políticos que estão à frente do Poder Público para, mais uma vez, nos pedir “paciência e resignação”. Seria uma forma de amenizar ou controlar nossa revolta para não expormos o que o próprio jornal deixa de fazer, ou seja, as vísceras desses governos municipal e estadual que passivamente entregam o problema à especulação imobiliária, como se prédios novos e envidraçados bastassem para resolver o problema (que, aliás, já não é mais de moradores de rua, pois as notícias já nos dão conta do grande envolvimento da classe média com o crack!).
Esse tom neutro e obsequioso do Editorial da FSP em relação àqueles “que governam” omite os nomes dos responsáveis (governadores, secretários, prefeitos e vereadores) e deixa de dizer a verdade: que o Poder Público (Estado e Município) não está interessado em resolver esse problema, pois não envolve efetivamente a Saúde, a Assistência Social (SMADS), a Secretaria do Trabalho, a de Habitação, o Ministério Público e todas as outras instâncias afins para enfrentamento desse grande desafio. No máximo, esses que hoje ocupam e de há muito vêm ocupando os mesmos lugares do Poder Público tentam nos enganar colocando na rua a polícia, que só faz espalhar o problema daqui para ali. E ainda com a empáfia de dizer que dessa vez o Poder Público está de fato atuando!
Observem que no texto do Editorial não há nenhum questionamento mais articulado em relação às ações desastradas do Poder Público até hoje, não há cobranças em relação ao envolvimento das áreas de Saúde, Habitação, Serviço Social, do Ministério Público etc., mas sim uma lamentável conivência com o “crime” das concessões urbanísticas transferidas à iniciativa privada que vai pisar na história do centro velho transformando tudo em shopping Center envidraçado (comprando a preço de cracolândia e vendendo a preço de Berrine). Para que, então, um Editorial desses, que diz o que o senso comum diz e quer ouvir?
Por essas e outras, é preciso que aprendamos a ler com cuidado essa nossa imprensa. Afinal, a serviço de quem está a Folha de S.Paulo?

Nelson Luis Barbosa