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sábado, 30 de agosto de 2014
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
A Era
Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue – dois séculos –
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.
Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.
Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O ouro da idade, áurea medida.
Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.
Óssip Mandel´štam
1923
Tradução Haroldo de Campos
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poesia
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Dois a sós
Para Leyla Perrone-Moisés, Improviso de Ohio
é uma peça "singular no universo de Beckett”. Se as personagens
beckettianas são sempre solitárias e se relacionam num regime de
sadomasoquismo ou mediante uma relação mestre/escravo, em “Improviso de
Ohio” não há nenhuma agressividade ou crueldade; pelo contrário, o que
aí se narra é elevado. Trata-se de um amor que foi feliz: “amor por/de
alguém que já morreu e envia outro para confortar o que ficou”. Segundo
Perrone-Moisés, este texto pertence ao gênero clássico chamado
''consolatio''. Beckett, em plena condensação poética, trata do amor sem
sentimentalismos, reduzindo tudo ao essencial.
Porém, certamente, o melhor do artigo está na explicação para a nova tradução, já que Haroldo de Campos e Maria Helena Kopschitz já tinham realizado outra anteriormente. Como o texto tinha versões de Beckett em inglês e francês, Leyla afirma que sua tradução está mais próxima do texto em francês, ao contrário da tradução anterior. Isso permite, por exemplo, encontrar outras soluções para traduzir expressões como “alone together”, que em francês virou “seuls ensemble”. Campos e Kopschitz traduziram por ''a sós juntos''. Já Perrone-Moisés preferiu aproveitar alguns versos de Fernando Pessoa : ''Hoje, falho de ti, sou dois a sós, / Há almas pares, as que conheceram / Onde os seres são almas./ Como éramos só um, falando! Nós / Éramos como um diálogo numa alma. / Não sei se dormes (...) calma, / Sei que, falho de ti, estou um a sós''.
Porém, certamente, o melhor do artigo está na explicação para a nova tradução, já que Haroldo de Campos e Maria Helena Kopschitz já tinham realizado outra anteriormente. Como o texto tinha versões de Beckett em inglês e francês, Leyla afirma que sua tradução está mais próxima do texto em francês, ao contrário da tradução anterior. Isso permite, por exemplo, encontrar outras soluções para traduzir expressões como “alone together”, que em francês virou “seuls ensemble”. Campos e Kopschitz traduziram por ''a sós juntos''. Já Perrone-Moisés preferiu aproveitar alguns versos de Fernando Pessoa : ''Hoje, falho de ti, sou dois a sós, / Há almas pares, as que conheceram / Onde os seres são almas./ Como éramos só um, falando! Nós / Éramos como um diálogo numa alma. / Não sei se dormes (...) calma, / Sei que, falho de ti, estou um a sós''.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
O que é poesia?
O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 3 de abril:
O que é poesia?
O POETA Edson Cruz perguntou "O que é poesia?" a diversos poetas. 45 responderam. Cada um deu uma resposta diferente, embora não necessariamente incompatível com as dadas por cada um dos demais. A pergunta era na verdade um pretexto para pensar sobre a poesia. O resultado se transformou num livro.
Eu mesmo participei do livro e recentemente, ao reler o que lá dissera, lembrei-me que já havia respondido a essa pergunta de outros modos. Por exemplo, supondo que a poesia é aquilo que faz de um poema um poema, escrevi uma vez que ela consiste no grau de escritura de um texto. A ideia é que um poema (bem) realizado é um texto dotado de um altíssimo grau de escritura.
Isso supõe que alguns escritos são mais escritos do que outros. Digo isso tendo em vista algumas das mais importantes características do discurso escrito, em oposição ao oral. Abstraindo dos modernos meios de gravação de voz, considero evidentes as seguintes três proposições:
1. Enquanto o discurso oral é efêmero, o discurso escrito tem uma permanência indefinida;
2. enquanto o discurso oral é fluido e aberto, isto é, está sempre em movimento, como a vida, e sujeito a mudar a todo instante, o discurso escrito é fixo e fechado, e não é sujeito a mudança;
3. enquanto o discurso oral se realiza ou se concretiza plenamente quando falado, o discurso escrito se realiza ou se concretiza plenamente quando lido.
Pois bem, embora todo discurso tenha uma permanência indefinida, não a tem na mesma medida. A permanência de um rascunho, por exemplo, ou de um bilhetinho, ou de um torpedo, ou de uma mensagem de celular, ou de um memorando não costuma ser muito grande. É assim quase tudo o que se escreve e não se publica.
Mas é também assim quase tudo o que se publica. Os jornais são guardados nas bibliotecas e nos arquivos, mas quem os lê senão, de tempos em tempos, um historiador? Um texto que não é lido não se concretiza plenamente. Ora, esse é o destino não só dos periódicos, mas, de modo mais inexorável ainda, de 99,9% dos livros. Assim, no que diz respeito à primeira característica do discurso escrito, que é a da permanência, entra em jogo a sua terceira característica, que é a de se concretizar ao ser lido. A mera permanência física de um livro está longe de significar a permanência plena ou concreta do seu texto.
Já a qualidade de ser fixo e fechado parece, à primeira vista, ser compartilhada igualmente por todos os textos, enquanto duram. Na verdade, porém, não é bem assim. Posso, por exemplo, considerar os rascunhos de um poema meu como as transformações pelas quais ele passou antes de ficar pronto.
Se eu fotografasse cada uma dessas transformações, fizesse slides dos fotogramas, colasse uns nos outros como numa fita de cinema e pusesse essa fita num projetor, creio que veria o poema a se mexer como se fosse um desenho animado. Ele pareceria, então, fluido como uma fala; e, caso se tratasse de um poema ainda não terminado, de modo que eu continuasse a adicionar fotogramas a essa fita, ele pareceria também aberto como uma fala.
Os textos que dizem coisas de caráter prático ou mesmo cognitivo, tais como os textos técnicos e científicos, são mais ou menos assim, abertos e fluidos, pois, caso contrário, o que dizem acaba por deixar de ser verdadeiro ou útil, de modo que eles se tornam obsoletos e deixam de ser lidos, isto é, deixam de se concretizar. Assim também enciclopédias ou dicionários mantêm-se vivos porque são atualizados por novas edições.
Os textos que não estão sujeitos a esse tipo de descartabilidade são aqueles cujo valor -atenção: neste ponto, não há como não empregar juízos de valor- não depende de serem verdadeiros ou falsos, ou de terem qualquer outra função prática. Assim são os textos literários que, valendo por si, pertencem antes à ordem dos monumentos do que à dos documentos. É assim que as Musas de Hesíodo se orgulham de saber "dizer muitas mentiras parecidas com a verdade".
Pois bem, dentre os textos literários, que valem por si e são os mais escritos dos escritos, os mais escritos de todos são os poemas. Por quê? Porque consistem em formas puras. No limite, não há, neles, diferença entre o que dizem e o modo como o dizem. Como não se pode, num poema, separar o significado do significante, a rigor não se pode dizer em outras palavras o seu significado. É por isso que, no que diz respeito a um poema, parece-me em geral menos apropriado falar de "tradução" do que, como dizia o poeta Haroldo de Campos, de "transcriação".
Do Blog "Acontecimentos", de Antônio Cícero.
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Dois a sós
Para Leyla Perrone-Moisés, Improviso de Ohio é uma peça "singular no universo de Beckett”. Se as personagens beckettianas são sempre solitárias e se relacionam num regime de sadomasoquismo ou mediante uma relação mestre/escravo, em “Improviso de Ohio” não há nenhuma agressividade ou crueldade; pelo contrário, o que aí se narra é elevado. Trata-se de um amor que foi feliz: “amor por/de alguém que já morreu e envia outro para confortar o que ficou”. Segundo Perrone-Moisés, este texto pertence ao gênero clássico chamado ''consolatio''. Beckett, em plena condensação poética, trata do amor sem sentimentalismos, reduzindo tudo ao essencial.
Porém, certamente, o melhor do artigo está na explicação para a nova tradução, já que Haroldo de Campos e Maria Helena Kopschitz já tinham realizado outra anteriormente. Como o texto tinha versões de Beckett em inglês e francês, Leyla afirma que sua tradução está mais próxima do texto em francês, ao contrário da tradução anterior. Isso permite, por exemplo, encontrar outras soluções para traduzir expressões como “alone together”, que em francês virou “seuls ensemble”. Campos e Kopschitz traduziram por ''a sós juntos''. Já Perrone-Moisés preferiu aproveitar alguns versos de Fernando Pessoa : ''Hoje, falho de ti, sou dois a sós, / Há almas pares, as que conheceram / Onde os seres são almas./ Como éramos só um, falando! Nós / Éramos como um diálogo numa alma. / Não sei se dormes (...) calma, / Sei que, falho de ti, estou um a sós''.
Porém, certamente, o melhor do artigo está na explicação para a nova tradução, já que Haroldo de Campos e Maria Helena Kopschitz já tinham realizado outra anteriormente. Como o texto tinha versões de Beckett em inglês e francês, Leyla afirma que sua tradução está mais próxima do texto em francês, ao contrário da tradução anterior. Isso permite, por exemplo, encontrar outras soluções para traduzir expressões como “alone together”, que em francês virou “seuls ensemble”. Campos e Kopschitz traduziram por ''a sós juntos''. Já Perrone-Moisés preferiu aproveitar alguns versos de Fernando Pessoa : ''Hoje, falho de ti, sou dois a sós, / Há almas pares, as que conheceram / Onde os seres são almas./ Como éramos só um, falando! Nós / Éramos como um diálogo numa alma. / Não sei se dormes (...) calma, / Sei que, falho de ti, estou um a sós''.
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