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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Samba e amor, leite derramado

“Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa de sua feiura.”

Matilde

"Debaixo do chuveiro eu agora me olhava quase com medo, imaginando em meu corpo toda a força e a insaciedade do meu pai. Olhando meu corpo, tive a sensação de possuir um desejo potencial equivalente ao dele, por todas as fêmeas do mundo, porém concentrado numa só mulher."

Matilde

"... no entanto, eu não sabia mais me libertar de Matilde, procurava adivinhar seus movimentos mais íntimos e seus pensamentos tão distantes".

sábado, 8 de dezembro de 2012

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Virada

Queria escrever algo sobre a Virada Cultural, evento de que não participei. Mas o texto de Mário Bortolotto, publicado na Folha de São Paulo de hoje (17/5/2010), já disse tudo. O que sobra é calar. Não com a boca cheia de feijão, como na música de Chico Buarque, nem como o "estranho" silêncio da mesma Folha de São Paulo diante da pesquisa do Vox Populi em que Dilma Rousseff aparece pela primeira vez à frente de José Serra. Trata-se de outro silêncio. Aquele que nos faz refletir para nos colocarmos na direção de passos novos, o que de resto deve ser sempre a nossa procura. Mas paro por aqui, pois muitas vezes o "viver não é preciso", não cabe, infelizmente, e somos obrigados a navegar em mares conhecidos e um tanto tortuosos. Eis o texto:

O desespero da diversão incomoda

E algo me dizia que não devia ou que não conseguiria. Quando me pediram pra escrever um texto com minhas impressões sobre a Virada, pensei: "Mas eu vou participar disso?" Saí anteontem de casa por força de compromissos profissionais. Tinha um show pra fazer com a banda Saco de Ratos e uma apresentação da peça "Música para Ninar Dinossauros". Não fosse por esses compromissos, não teria colocado o nariz pra fora do meu "bunker-kitchenette" nem para aspirar o doce ar da noite paulistana (e isso não é nenhuma ironia), que anteontem estava por demais aflitiva, aumentando em escalas assustadoras minha crescente agorafobia.
Talvez ainda esteja longe de me tornar um antissocial, mas tenho de confessar que já não me sinto à vontade em lugares apinhados, mesmo sabendo que tenho de atravessar o viaduto do Chá na hora do rush três dias por semana. Acho que a Virada tem tido um efeito positivo nas pessoas que assistem aos shows -e também nos artistas que trabalham. Então, este não é um texto antiVirada. É simplesmente minha "trip" personalíssima e atual.
Minha retirada exclusivamente voluntária se baseia na ideia de que não consigo me divertir onde muitas pessoas buscam desesperadamente fazer o mesmo. E é justamente esse "desespero" que me incomoda. A diversão não me incomoda, muito pelo contrário. Gosto de me divertir e gosto de ver as pessoas se divertindo. Mas o desespero me incomoda, e a alegria se revela paradoxal, como se fosse necessário assistir a todos os shows, beber todas as cervejas e estar onipresente nos lugares. E, obrigatoriamente, se divertindo muito. Essa é a regra, não é?
Me parece um reflexo do tipo de aflição que nos persegue atualmente. Nossos trabalhos são tão chatos, nossas opções de vida se mostraram tão insatisfatórias e a diversão é tão rara que agora nos sentimos obrigados a usufruir da maneira mais violenta possível nas ocasiões em que ela se manifesta.
Foi o que melancolicamente senti anteontem à noite enquanto procurava desviar da multidão apressada para proteger meu braço recém-operado e revestido de titânio. Vendo as pessoas tomadas por uma alegria forçosamente intensa e por uma espontaneidade que me remete a festas lisérgicas, fui ficando irreversivelmente desanimado. Minha alma frouxa foi se acabrunhando de maneira terrível, e tudo o que eu queria era alguma espécie de fuga, um retiro voluntário, um exílio pré-determinado. Algum tipo de paz.

Coliseu moderno
Talvez tenha a ver com a idade, ainda preciso pensar nisso, pra não parecer leviano com minhas próprias atitudes. Mas enfim: o que sei é que talvez seja necessário fazer uma reflexão maior. Hoje, nós temos os quatro dias de Carnaval, o futebol de domingo, o chope do sábado à tarde. Na Roma Antiga, era o Coliseu, uma espécie de válvula de escape da multidão que, pelo menos em uma hora ou duas, se sentia aliviada vendo leões devorando cristãos ou gladiadores tendo as cabeças decepadas. Não vou simplesmente virar meu polegar pra baixo ao falar da Virada, mas também não vou fazer o sinal de positivo. Continuo achando que há algo estranho numa sociedade que precisa "desesperadamente" se sentir aliviada e feliz por algumas horas. Não deveria esse ser um direito nosso o ano todo?


Mário Bortolotto é ator, diretor e dramaturgo; em dezembro de 2009, foi baleado num assalto a um teatro na praça Roosevelt, centro de São Paulo

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Podemas

Devo dizer que sequei muito o Fluminense. Inquietava-me ver um time que poderia estufar o filó tantas vezes com beleza e precisão, como se sonha sempre ser possível, ficar perdido técnica e emocionalmente a ponto de tomar de quatro no Equador. Inquietava-me ver que a firula exata, a pintura do chute a gol e a emoção da idéia quando ginga de Dodô estavam no banco por conta de uma mistura improvável de arrogância e medo de Renato Gaúcho. Confiança não é soberba, e muito menos arrogância pública, diria Xico Sá. A vaga geometria em direção ao corredor e a paralela do impossível foram atropeladas por um time mediano. Detalhes do futebol, esse esporte do imprevisto. Mas sempre acho que os técnicos que querem ser mais do que o próprio jogo merecem perder. Tal como no famoso diálogo entre Degas e Mallarmé, no qual este afirma que a poesia é feita de palavras e não de idéias, o futebol é para quem joga e não para quem fala.