quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Conclusão

A morte é grande.
Nós, sua presa,
vamos sem receio.
Quando rimos, indo, em meio à correnteza,
chora de surpresa
em nosso meio.

Rainer Maria Rilke

CAMPOS, Augusto de. Coisas e Anjos de Rilke. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2007.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Tão pequeno

Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

Caetano Veloso

[ sobre poema de Luís de Camões ]

quarta-feira, 29 de julho de 2009

XXVII

Avec ses vêtements ondoyants et nacrés,
Même quand elle marche on croirait qu'elle danse,
Comme ces longs serpents que les jongleurs sacrés
Au bout de leurs bâtons agitent en cadence.

Comme le sable morne et l'azur des déserts,
Insensibles tous deux à l'humaine souffrance,
Comme les longs réseaux de la houle des mers,
Elle se développe avec indifférence.

Ses yeux polis sont faits de minéraux charmants,
Et dans cette nature étrange et symbolique
Où l'ange inviolé se mêle au sphinx antique,

Où tout n'est qu'or, acier, lumière et diamants,
Resplendit à jamais, comme un astre inutile,
La froide majesté de la femme stérile.

BAUDELAIRE. Charles. “Les Fleurs du Mal”. In: Oeuvres complètes. Éditions Robert Laffont, 2001.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Carta-manifesto contra a Cracolândia

A comunidade do bairro de Campos Elíseos e adjacências vem publicamente protestar junto à Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado quanto ao modo como vêm tratando o grave problema da Cracolândia e dos moradores de rua na cidade de São Paulo.

Campos Elíseos e bairros adjacentes não aceitam que a nova Cracolândia se instale nas suas ruas, sendo empurrada pela Prefeitura, que entrega a região da Nova Luz ao poder do capital e da especulação imobiliária.

Exigimos que a Prefeitura e o Governo do Estado apresentem urgentemente solução para o problema e um plano de metas para nossos bairros, considerando:

a) A necessidade de um programa sério de saúde, criado e mantido pela Prefeitura e pelo Estado, para tratamento de usuários de crack e outras drogas, com criação e implementação de clínicas para tratamento de dependentes químicos.

b) Promova uma discussão pública e com especialistas a respeito do direito dessas pessoas a tratamento de saúde e acolhimento social.

c) Respeito à Lei Municipal 12.316 em relação aos serviços sociais necessários e urgentes para acolhimento e atendimento a moradores de rua, devolvendo-lhes a dignidade perdida e/ou ameaçada.

d) Coíbam e fiscalizem ações assistencialistas no bairro que visam manter as pessoas carentes em situação de miséria permanente por exclusiva dependência de supostos benefícios.

e) Promovam a revitalização e recuperação dos bairros centrais para que estes não venham a se tornar, posteriormente, alvo da especulação imobiliária que pisa na história dos bairros e da cidade de São Paulo.

Nosso manifesto visa mostrar à população que, por atrás de importantes e necessários equipamentos culturais para a cidade, como a Sala São Paulo, a Estação Pinacoteca e a Escola de Balé, existe um entorno totalmente degradado que agoniza a céu aberto e que tem sido tratado pelo Poder Público com desprezo e desrespeito aos cidadãos do centro. Não queremos que nossos bairros se tornem num futuro próximo alvo de predadores movidos exclusivamente pela especulação imobiliária.

Exigimos respeito, segurança e participação nas decisões quanto ao futuro de nossos bairros.

São Paulo, julho de 2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ingenuidade

Não
Eu não podia me enganar assim
Com uma criança qualquer
Que veio ao mundo bem depois de mim
Eu não reclamo o que ela fez
Só condeno a mim mesmo
Por ter me enganado outra vez

Eu fiz o papel de um garotinho
Quando arranja a primeira namorada
Na ingenuidade, acredita em tudo
Porque do amor não entende nada
Esqueci que um dia machuquei meu coração
E levei muitos anos pra curar
E fui tornar molhar meus olhos
Coisa que eu luto a muitos anos pra enxugar.

(Serafim Adriano)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mortal loucura

Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra.

Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

O voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.

(Zé Miguel Wisnik e Gregório de Matos)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Das solidariedades hipócritas

Não vejo maiores movimentações da "sociedade civil" ou da "imprensa" para se solidarizar com os maranhenses e piauienses, vítimas das enchentes, tal como vimos com insistência na telinha da Globo, meses atrás, a propósito da "tragédia de SC". O sensasionalismo e a hiprocrisia nos assolam, inundando nossa alma já azeda.

Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

CAMÕES, Luís de. "Sonetos". In: Obra Completa em um volume. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2005, p. 273.

Fenômeno

Ele conhece todos os atalhos. Impressiona pela inteligência: de antemão intui o espaço a ser ocupado, precisando menos da força física e mais do pensamento arguto, que sabe bem antes da bola chegar o que e como fazer.

domingo, 26 de abril de 2009

Le temps

"Mon ami, faisons toujours des contes...
Le temps se passe, et le conte de la vie
s'achève, sans qu'on s'en aperçoive".

Diderot

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Muito além do Cidadão Dantas

É no mínimo estranho a ênfase dada pela Globo ao conflito entre MST e os seguranças da fazenda Espírito Santo, no Pará. Em nenhum momento a Globo revela que o proprietário da fazenda é justamente o Daniel Dantas. Por que será, hein?

Gilmar Dantas

Sinto pelos leitores que prezam a ordem e o tradicional clima cordial do STF. Embora tenha horror às controvérsias e ao bate-boca, devo dizer que senti um enorme prazer ao ouvir as palavras do ministro Joaquim Barbosa.

Um Homem de Moral

De Adoniran Barbosa, ao mostrar a diferença entre os sambas dele e os de Paulo Vanzolini: "O Vanzolini é erudito e eu sou pitoresco".

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sobre a intuição

O raro leitor sabe o quanto a intuição é fundamental neste mundo tão descrente de tudo. A intuição é um ver onde não se vê. É um visto não visto, mas que se sabe. Na intuição temos o pressentimento, e também o discernimento. O que se sente e o que se percebe racionalmente, mas sempre como mistério. É da faculdade da intuição captar essências que de tão temporais e fluidas, são paradoxalmente concretas. Trata-se de um alargamento do espaço, entrelaçamento entre real e ficcional, desde que se entenda todo ficcional como alargamento de formas possíveis. A isso chamaria intuir. Escreveu Fernando Pessoa que para decifrar os símbolos era preciso cinco qualidades: simpatia, compreeensão, inteligência, a conversa com o anjo da guarda e justamente a intuição. Por intuição, escreveu o poeta, entende-se o que está além do símbolo, o entendimento que se sente, sem que se veja. Acrescentaria que para entender sem ver é preciso ver. Ver o que está além do símbolo. É o que nos falta.

South American Way

Have you ever danced
in the tropics?
With that hazy lazy
Like, kind of crazy
Like South American Way

Ai, ai, ai, ai
Have you ever kissed
in the moon light
In the grand and Glorious
Gay Notorious
South American Way

Um só coração

Uma vida aguenta as efusividades de um coração ?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sobre os mortos

''O pior dos mortos é que nunca telefonam'', escreveu certa vez Rubem Braga.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Poética da recusa

Henri Michaux e a recusa de ser fotografado: “escrevo para revelar uma pessoa de cuja existência ninguém suspeitaria ao olhar para mim”

Muros

De Saramago, sobre os muros do Rio: Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda a parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Memorial de Aires

Do Conselheiro Aires, ao justificar a preferência pela conversação das mulheres: "Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem, agrava".

segunda-feira, 30 de março de 2009

Crise

Olhos Azuis

Do ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva:

A Folha adora debochar das mancadas verbais do presidente Lula. Quase sempre de maneira preconceituosa, elitista, exagerada, inócua e equivocada porque um presidente deve ser julgado pela sua administração, não pelo seu português ou seus conhecimentos gerais.
Na sexta, deu destaque a um desses deslizes: a acusação de que a crise econômica é culpa de "gente branca com olhos azuis". A frase tem conotação racista e ideológica, foi proferida diante de um chefe de governo de nação majoritariamente branca e merecia repercussão.
Mas ao armar uma pegadinha para Lula e mostrar que há envolvidos na crise negros, asiáticos e de olhos castanhos, o jornal aceita a premissa do argumento e se nivela com ele.

Porque a carga horária almentar ?


A semana foi cheia: Camargo Corrêa, Daslu e olhos azuis. Todavia, esta imagem merece todo o destaque. O raro leitor diria: Cacilda !!!

domingo, 8 de março de 2009

Ronaldo x Palmeiras

Nunca achei tão merecido um gol do Corinthians. Os deuses iluminam e a bola procura o craque.

sábado, 7 de março de 2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

"Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos".

"Feliz é o destino da inocente vestal
Esquecida pelo mundo que ela esqueceu
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança"

Epitáfio

Rose, oh reiner Widerspruch, Lust,
Niemandes Schlaf zu sein unter soviel
Lidern.

Rosa, ó pura contradição, volúpia
De ser o sono de ninguém sob tantas
Pálpebras.

Rainer Maria Rilke
(tradução de Manuel Bandeira)

A Pantera

No Jardin des Plantes, Paris

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
Grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

Rainer Maria Rilke
(tradução de Augusto de Campos)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Feito um riachinho num ribeirão

Antes, nos outros lugares onde morara, tudo acontecia já emendado e envelhecido, igual se as coisas saíssem umas das outras por obrigação sorrateira - os parentes, os conhecidos, até os namoros, os divertimentos, as amizades, como se o atual nunca pudesse ter uma separação certa do já passado; e agora ele via que era dessa quebra que a gente precisava às vezes, feito um riachinho num ribeirão ou rio precisa de fazer barra.

ROSA, João Guimarães. "A Estória de Lélio e Lina". In: Corpo de Baile. Volume 1. Edição Comemorativa 50 anos. São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2006.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Plataforma 2009

Não põe corda no meu bloco,

nem vem com teu carro-chefe,

não dá ordem ao pessoal.

Não traz lema nem divisa que a gente não precisa

que organizem nosso Carnaval.

Eu não sou candidato a nada,

meu negócio é madrugada mas meu coração não se conforma.

O meu peito é do contra e por isso mete bronca

nesse samba-plataforma:

por um bloco que derrube esse coreto,

por passistas à vontade que não dancem o minueto,

por um bloco sem bandeira ou fingimento

que balance a abagunce o desfile e o julgamento,

por um bloco que aumente o movimento,

que sacuda e arrebente o cordão de isolamento.

João Bosco & Aldir Blanc

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Chá de Jurubeba

Lula tem razão: ler jornal faz muito mal ao fígado. Ouvi com atenção o conselho, uma vez que já exijo bastante do querido figueiredo...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Preleção I

(...)Mas era esperto o bastante
Para admirar o poeta
Por ele suportar com bons modos
As circunstâncias desagradáveis:
Aquelas damas com as melhores intenções,
Os esnobes e seus aplausos,
O canibalismo e as guerras
Do seu século.

Porque o palestrante apenas fingia
Estar entre eles, com eles.
Na verdade, recolhido,
Estava contando sílabas.
Servo da arquitetura,
Criador de variantes de cristal,
Se apartava da causa
Irrazoável dos mortais. (...)

MILOSZ, Czeslaw. "Preleção". In: Não Mais. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Coleção Poetas do Mundo. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2003.

Preleção II

(...) E infelizmente, infelizmente passaram
A alegria e o choro,
A fé e o desespero,
A vileza e o horror.
O vento cobriu de neve os sinais,
A terra levou os gritos,
Hoje ninguém mais se lembra
Como e quando isto foi.

E só um dourado, brilhante
Verso decassilábico
Perdura e perdurará pela própria
Harmoniosa razão.
E eu, tarde, retorno
Com um pouco de amargura
Ao seu cemitério marinho
Num meio-dia começado a cada dia.

MILOSZ, Czeslaw. "Preleção". In: Não Mais. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Coleção Poetas do Mundo. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2003.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Crase

Afinal, a crase foi feita ou não para humilhar alguém?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Pecado?

- "Dito, eu fiz promessa, para Pai e Tio Terêz voltarem quando passar a chuva, e não brigarem, nunca mais ..." " - Pai volta. Tio Terêz volta não." " - Como é que você sabe Dito?" "- "Sei não. Eu sei. Miguilim, você gosta de tio Terêz, mas eu não gosto. É pecado?

ROSA, João Guimarães. "Campo Geral". In: Corpo de Baile. Volume 1. Edição Comemorativa 50 anos. São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2006.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Legados de FHC

Sem dúvida alguma, o governo FHC foi medíocre, para dizermos o mínimo. E isso é ponto pacífico, a não ser que resolvamos dar ouvidos aos tucanos e neotucanos de plantão. Mas ainda há um pingo de lucidez a este escriba e certamente isso não faria. Assistiria a um jogo da série B, iria à Bienal ou beberia uma cerveja quente. Seria melhor. Digo isso porque me parece que nada tenha sido pior nos anos tucanos do que a indicação de Gilmar Mendes para o STF. Parece ficção o fato de que Protógenes tenha saído da condição de investigador para a de investigado em tão pouco tempo. Mas não é. Trata-se, na verdade, desta realidade crua que bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos. O mais alto "sentimento humano" jamais perdoaria FHC por tal façanha.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Também este dia passará

O dia ainda claro na igreja,
tudo em volta é esta solidão.
a vida em seus intervalos
o vazio da morte
a vida da vida.

Num mesmo
e outro tempo
meninos jogam futebol
até entardecer: horário de verão.

Ode Marítima

O que quero é levar pra Morte
Uma alma a transbordar de Mar,
Ébria a cair de coisas marítimas

PESSOA, Fernando. "Poesias de Álvaro de Campos". In: Ficções do Interlúdio. In: Obra poética. Vol. Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2001.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Um João

João não era fabulista, mas a própria fábula. Desses amigos que não precisamos "fazer", pois os reconhecemos desde logo. Há uma espécie de energia em cada momento compartilhado e que às vezes não nos damos conta. Contigo foi diferente. Rápido, percebi. Por isso, continuarei pensando que virás ainda para mais uma "mão de vaca", uma visita ao Masp ou para irmos ao restaurante japonês. João, nesta terça-feira, o dia amanheceu, mas não para nós. Fica a sensação de que um cometa nos transpassou, iluminando-nos por alguns instantes e dizendo que a vida é possível, apesar de tudo, que nós passamos por ela e ela por nós, e que nela vale a pena ter alegria. Morre jovem o que os Deuses amam é um ensinamento muito antigo. Culparemos os deuses, então? Hoje, neste imenso e vazio agora, a pergunta já não nos cabe. Ficamos com nossa saudade, esta ausência tua para outra vida, para a mesma vida, a vida continuando no que você viveu. Você não se despediu, mas sabemos conosco que faltará a este mundo um pouco de tua alegria.

El Aleph

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável.

BORGES, Jorge Luis. "O Aleph". In: O Aleph. Tradução de Flávio José Cardozo. São Paulo: Ed. Globo, 2003.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Carta ao Homem do Povo Charlie Chaplin

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duas horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados,
os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irreponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. In: Poesia Completa. Volume Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2002.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Astúcias do Dis-curso

Quando se ouve de Soninha Francine que a sua saída do PT deve-se a discordâncias com os rumos que o partido tomou, acho que todos devemos achar razoável e plausível o argumento. Quando Soninha entra para o PPS de Freire já não podemos pensar o mesmo. E o que dizer dos elogios que ela faz ao governador José Serra? Mas a gota d'água é este apoio a Kassab do DEMo. Que eu saiba nem Kassab, nem o DEMo são um jeito novo de fazer política. DEMo é PFL, que é Arena, e que é tudo o que há de mais atrasado neste país. "Ser jovem e idealista" é apenas um chavão marqueteiro associado ao que tem de pior na política. Votar na Soninha significa marcar uma posição: estar ao lado de "políticos tradicionais" e de um marketing que simula um olhar diferenciado sobre a política, mas que no fundo é muito pior do que tudo o que vimos e vemos por aí.

Partida

Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.

SÁ-CARNEIRO, Mário de. "Dispersão". In: Poemas. Edição Teresa Sobral Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Obra em Progresso

Sem querer inclinar-me para lá ou para cá, mas foi grosseirão o tal de Bagno, hein!

domingo, 10 de agosto de 2008

Cacófatos do MMA

Minc confisca gado.

sábado, 2 de agosto de 2008

Comissão Brundtland, 1987

“Desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades”.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Boi voador não pode

São 80 milhões de cabeças na Amazônia: Manda prender esse boi ... Seja esse boi o que for ...

ONGs na Amazônia

Efeito da democracia ou sucateamento do Estado?

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Questão de fundo 2

No fundo, os novos fundos do mercado agrícola internacional são os grandes responsáveis pela "era não-geográfica" da alimentação, para reiterarmos a expressão de Carolyn Steel. Quem vive em grandes cidades não imagina que o bife, o leite e os ovos consumidos vêm de algum lugar distante e improvável do planeta. Além disso, os preços em alta, frutos de mera especulação dos mercados da volatilidade, acabam com o fundo dos bolsos dos mais pobres, para não dizermos mais de outra maneira.

Contra Blairo Maggi

Para o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a área desmatada na Amazônia Legal caiu em junho. Para a Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) o desmate aumentou. Uma coisa é certa, como diz o Millôr: nas grandes cidades se mata, na Amazônia se desmata.

Será?

De Kassab para o povo de São Paulo: "Se eu tivesse bola de cristal, não teria participado (O prefeito foi secretário de Planejamento de Celso Pitta). As pessoas me conhecem hoje, sabem a minha maneira de trabalhar, a seriedade como trato dos recursos públicos", disse. "Se o tempo voltasse, evidentemente eu não participaria."

Questão de fundo

O Ministro Tarso Genro, em seu discurso contra os torturadores do regime militar: "Essa é uma discussão de fundo, da democracia, é uma discussão de fundo sobre todos. É uma discussão sobre as instituições da república, portanto, uma discussão sobre o nosso futuro".

Termômetro

O mundo aquece, enquanto a Exxon, maior petrolífera do mundo, aquece seu próprio cofre. A empresa teve no ano passado o maior lucro da história do capitalismo: US$ 39,5 bilhões.

Clima de Omissão

Parar limitarmos o aquecimento global a 2C, podemos jogar "somente" 750 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera neste século. Se nada for feito, será emitido até o fim do século 1,4 trilhão de toneladas. Isso é o que afirma os relatórios do IPCC, de fevereiro de 2007.

É muita sujeira para se atingir o "progresso", não?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Consenso

A Rodada Doha rodou.

sábado, 26 de julho de 2008

Contra a auto-ajuda

Se todos forem prósperos, certamente o mundo será ainda mais chato.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Mar sonoro


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.

A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Dia do Mar. Lisboa: Ática, 1947.

terça-feira, 22 de julho de 2008

A Mídia e os banqueiros

A partir do momento que a imprensa chama Daniel Dantas de "banqueiro desonesto", fica evidente que algo cheira muito mal. Sabe-se que a expressão "banqueiro honesto" é paradoxo, antítese, oxímoro.

domingo, 20 de julho de 2008

Zé Pilintra

Em alguns casos seria interessante instituir o teste de bafômetro para pedestres ...

sábado, 19 de julho de 2008

Alstom: Consórcio Via Amarela

O buraco do metrô de São Paulo é mais em cima.

Data

Não se navegam os corações como os mares deste mundo; não se trocam sensações como as mercadorias deste mundo; o escuro do futuro não é tão palpável quanto a renúncia deste mundo.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Espero

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Poemas Escolhidos. Seleção de Vilma Arêas. São Paulo: Companhia das Letras, 2004

quinta-feira, 17 de julho de 2008

No poema

No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Mar Novo". In: Poemas Escolhidos. Seleção de Vilma Arêas. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Instantes

Há intantes que são nossos; vivemos com eles. Em algibeiras líquidas, nós os guardamos, porque outros pintam e outros hão de pintar. No sonho colorido do pintor, eles aparecem imprimindo lágrimas, criando cores, ensejando traços, refazendo o desenho. Importam como força formadora e não como produto final. Conferem duração à gênese do tempo: vivimento real, eles formam e desformam. Nós os temos, mas sobretudo, procuramos.

domingo, 13 de julho de 2008

Eureka !

Tiquira

Acepções
substantivo feminino
Regionalismo: Norte do Brasil

aguardente de mandioca

Etimologia: tupi ti'kïra 'aguardente de mandioca' (Dicionário Houaiss)

Hipóteses

A vida é um abre olho e fecha olho, um abrir e fechar o olho, um abre e fecha olho. Até um dia em que os olhos não abrem e não há mais depois. Haverá uma outra coisa: um olho fechado, uma outra coisa ...

O corte das palavras da Corte

Não há somente o reino das palavras, mas também as palavras do reino. O penetrar surdo destas últimas causa alarido e dissipa as possibilidades do outro reino, que não tem rei. As palavras do reino, ao contrário, têm rei. E o rei julga a inaceitável convicção íntima de seus subordinados, pensando que a convicção dele, além de ser aceitável, é imprescindível para o bem comum do corpo místico do reino.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Das Wort Vom Zur-Tiefe-Gehn

IR-AO-FUNDO,
a palavra que lemos.
Os anos, as palavras desde então.
Somos sempre os mesmos.

Sabes, o espaço é infinito,
sabes, não precisas voar,
sabes, o que se escreveu em teu olho
aprofunda-nos o fundo.

CELAN, Paul. "A Rosa-de-Ninguém". In: Cristal. Tradução de Claudia Cavalcanti. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1999.

E agora quem poderá me defender ?

Pelo visto, ao contrário de Cacciola, Daniel Dantas não precisará ir tão longe para pedir auxílio.

Contra a Mídia

O presidente do STF não gostou da "espetacularização das prisões". Segundo ele, seria com comedimento que a PF deveria agir na prisão de Nahas, Dantas e Pitta. Se possível, sem divulgação da imprensa. Tudo para não afetar a honra dos acusados. Seria muito melhor se o STF dissesse o que pode e o que não pode ser noticiado. Também seria interessante que se deixasse claro qual a ênfase conveniente a ser dada a cada assunto.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Na Asa do Vento

A lua é clara
O sol tem rastro vermeio
É o mar um grande espeio
Onde os dois vão se mirar
Rosa amarela quando murcha
Perde o cheiro
O amor é bandoleiro
Pode inté custa dinheiro
É fulô que não tem cheiro
E todo mundo quer cheirar

Luiz Vieira / João do Vale

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Podemas

Devo dizer que sequei muito o Fluminense. Inquietava-me ver um time que poderia estufar o filó tantas vezes com beleza e precisão, como se sonha sempre ser possível, ficar perdido técnica e emocionalmente a ponto de tomar de quatro no Equador. Inquietava-me ver que a firula exata, a pintura do chute a gol e a emoção da idéia quando ginga de Dodô estavam no banco por conta de uma mistura improvável de arrogância e medo de Renato Gaúcho. Confiança não é soberba, e muito menos arrogância pública, diria Xico Sá. A vaga geometria em direção ao corredor e a paralela do impossível foram atropeladas por um time mediano. Detalhes do futebol, esse esporte do imprevisto. Mas sempre acho que os técnicos que querem ser mais do que o próprio jogo merecem perder. Tal como no famoso diálogo entre Degas e Mallarmé, no qual este afirma que a poesia é feita de palavras e não de idéias, o futebol é para quem joga e não para quem fala.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Toca da Raposa

Em 2007, a Volks faturou 21 bilhões de reais no Brasil, com crescimento de 33% nas vendas. Sabe-se que, se dependesse somente de suas vendas na América do Norte ou na Europa, a empresa alemã estaria no vermelho. Mesmo assim os descuidos com o consumidor brasileiro são enormes. Não podemos esquecer do caso "Fox", modelo produzido desde 2003, que apresenta defeitos como uma tal trava que serve para ampliar o espaço do bagageiro, mas também tem como virtude decepar os dedos dos desavisados que a acionam. Como se vê, o aumento da produção automobilística não causa só a amputação do tempo, mas também outras mutilações. E assim, seguimos: uma bancarrota blues da expansão da economia ...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Ponte Estaiada

Tudo muito alegórico: A ponte dos Frias é mais moderna que a dos Mesquitas, além de ser mais "importante": liga o bairro do Morumbi à avenida Jornalista Roberto Marinho, enquanto a dos Mesquitas não leva ninguém a lugar nenhum. Como se não bastasse, sob as pontes "correm" dois cães sem nenhuma pluma, dois rios podres que fedem e muito. Nas margens, um mar de carros parados.

Da amizade

Para ser amigo, é preciso antes comer um quilo de sal junto.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ousadia da alma

Na vida se aprende que as incertezas são maiores que qualquer certeza e que a indefinição é maior que as definições. Quando William Clark disse que a fé é ousadia da alma, talvez seja porque se lida na fé com o amorfo, com o indefinido, com a incerteza. Sabe-se que andar com fé não costuma faiá, como nos diz a canção, mas às vezes a fé quer ser tão singular que acaba por estrangular as outras possibilidades que a vida nos apresenta, as outras "fés". Talvez faça mal a fé, esta firme crença em algo para o qual não há nenhuma evidência, exatamente pelo fato de que quando há evidência não há fé, há um fato. Por aí, só há fé quando falta fato. Entre os atos, os fatos e a fé há algo de indefinível que queremos desesperadamente definir.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Parafraseando Romário

Se, ao entrevistar José Miguel Wisnik, Lillian Witte Fibe ficasse calada, certamente teria feito um soneto.

Veneno Remédio

A Holanda perdeu exatamente quando eu pensava em escrever sobre a beleza de seu futebol. Desde 74, a Holanda mostra ao mundo um futebol muito ofensivo e diferente da Europa. Um futebol de poesia, que insiste em ter um ponta direita e um ponta esquerda. Acho que eles ensinam - não tanto quanto antes - ao mundo pragmático que o futebol é mais do que o cálculo cego, além de que a "tradição" pode ser extremamente revolucionária. É triste tudo isso, pois ao passo que a Europa nos copia, nós os copiamos e tudo fica muito chato, previsível, oco.

Corona

Da minha mão o outono come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo volta à casca.

No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca fala a verdade.

Meu olho desce ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio-sangue da lua.

Ficamos entrelaçados à janela, eles nos olham da
[rua:
está na hora de saber!
Está na hora da pedra começar a florescer,
de um coração golpear a inquietude.
está na hora de ser hora.

Está na hora.

CELAN, Paul. "Ópio e Memória". In: Cristal. Tradução de Claudia Cavalcanti. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1999.

Parafraseando Oswald

Só a corrupção nos une: Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Festa do Boi

Salve o Morro do Querosene !

Uti Possidetis

Marco Aurélio Mello acha que a demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol é um absurdo. Se formos ao extremo, teremos que entregar o Rio de Janeiro aos Tamoios, afirmou o ministro, compreendendo os direitos dos arrozeiros. Se levarmos em consideração que ele não se arrepende de ter concedido habeas corpus a Cacciola, muito não podemos esperar.

Ideb

Se tristes são os resultados da Educação em São Paulo, o estado mais rico do país, o contentamento da secretária Maria Helena Guimarães de Castro certamente é muito mais. O problema não é que a Educação na administração tucana não dá certo. A questão é que ela é feita exatamente para dar errado. Seria o tal do choque de gestão ..?

Biocombustível

Sempre vislumbrei no álcool o futuro do Brasil.

Fogo Imigo

Denise Abreu faz jus ao palíndromo "TUCANO NA CUT".

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Inscrição


Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto do mar.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Livro Sexto". In: Poemas Escolhidos. Seleção de Vilma Arêas. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Leitores IV

Só se lê bem aquilo que é lido com algum propósito pessoal. Pode ser até com a intenção de adquirir poder. Pode ser até mesmo com ódio ao autor.

Paul Valéry

Leitores III

Ler é traduzir, pois a experiência de cada pessoa com o texto é exclusiva. Um mau leitor é como um mau tradutor: interpreta literalmente quando deveria parafrasear, e adota a paráfrase quando deveria interpretar literalmente. Para aprendermos a ler de uma forma mais crítica, a erudição, embora bastante útil, é menos importante que o instinto; há grandes eruditos que, como tradutores, mostraram-se fracos.

AUDEN, W.H. "Ler". In: A Mão do Artista. Tradução de José Roberto O'Shea. São Paulo: Siciliano, 1993.

Caetano Veloso, 'cavalo' padecente

TRISTE BAHIA


Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

(In: Gregório de Matos. Crônica do Viver Baiano Seiscentista. Obra Poética Completa. Códice James Amado. Vol. 1. Rio de Janeiro: Record, 1999).


terça-feira, 20 de maio de 2008

The gouffre de nosotros

A ô-posição quer fazer CPI, mas desejava que o depoimento de André Fernandes, assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), fosse secreto. Intentaram sem o menor pudor, como se entre uma atitude e outra não existisse um enorme abismo. André Fernandes recebeu o e-mail de José Aparecido Nunes com planilhas de gastos do governo FHC, o suposto dossiê, como ainda insiste a bolha. Muito bem. Além disso, sabe-se que Fernandes é um baqueano em CPIs e dava até palestras sobre o assunto. Não é possível a coincidência entre os dois fatos. Desse jeito, o Partidão da Imprensa vai se dar mal mais uma vez. Tal como José Agripino Maia. Ô, ô-posiçãozinha ...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Leitores II

Há os que lêem e logo em seguida esquecem; há os que leram, mas passam a vida citando o que outros leitores citam; há os que citam livros que nunca leram; e há também, este um tipo especial, os que relêem os livros que nunca leram.

Leitores I

Há três classes de leitores: o primeiro, o que goza sem julgamento; o terceiro, o que julga sem gozar; o intermédio, que julga gozando e goza julgando, é o que propriamente recria a obra de arte.
Goethe

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Mengão Bi

"Quem não se comunica, se trumbica!", dizia Chacrinha. É evidente que o bordão teve sentido oposto para o Fenômeno.

Voto Camarão

O que dizer de José Agripino Maia (DEM-RN) ? Dos porões da ditadura veio à tona uma entrevista em que Dilma Rousseff afirma ter mentido muito em interrogatórios na década de 70, nos quais estava sob tortura. Maia tenta intimidar a ministra e suscitar que ela também estava mentindo no Senado. Dilma reage: "Eu fui barbaramente torturada, senador" (...) "Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para torturadores compromete a vida de seus iguais, entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador, porque mentir na tortura não é fácil". Acho que não é preciso dizer mais nada. O que aconteceu só reforça a tese de que "o grande ícone da moral", título propagandeado pelo espetáculo midiático, não passa de um filhote da dita dura. Desta vez Jajá deixou rabo-de-palha.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Flor

A pedra.
A pedra no ar, que segui.
Teu olho, tão cego como a pedra.

Éramos
mãos,
esvaziamos a escuridão, encontramos
a palavra, que ascendia do verão:
flor.

Flor - uma palavra de cegos.
Teu olho e meu olho:
procuram
água.

Crescimento.
O coração: de parede a parede
se forma.

Uma palavra ainda, como esta, e os martelos
vibram ao ar livre.

CELAN, Paul. "Prisão da Palavra". In: Cristal. Tradução de Claudia Cavalcanti. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1999.

Investiment Grade

Hoje, o que acontece assusta. Disse João Cabral, no entanto, que a famosa frase de Adorno sobre o fim da poesia após Auschwitz era só uma boutade. Afinal, a arte sempre existiu e o mundo sempre foi violento. A poesia nasceu muito mais da infelicidade que da felicidade, diz Cabral. Mas a violência continua a assustar. De tão indômita, parece algo próprio de "nosso tempo". O mundo prometido em que a ciência e a democracia trariam níveis cada vez maiores de desenvolvimento técnico e moral não chegou. No capitalismo, a razão é só instrumental. Serve sempre a interesses escusos. A fuga do mito para soerguer a razão, como se sabe, nos levou aos campos de concentração. A razão dormiu. A razão teve insônia. E o que temos hoje, na verdade, são processos de controle cada vez mais elaborados. No supermercado, há placas que dizem: Sorria, você está sendo filmado. Quer dizer, não são mais necessários os antigos confinamentos. A prisão, a escola, o hospício, tudo está fora de moda. Em compensação, o capital cria outras formas de controle. Temos tornozeleiras ou coleiras eletrônicas que dispensam o modelo antigo. Elas são ligadas a um computador central, uma espécie de HAL, que nos elimina como indivíduo, deixando-nos sempre divíduos, sempre partidos. O controle começa já na produção, um controle, sobretudo, do corpo. Quanto mais técnica, mais controle e isso significa mais violência. E o que se vê são atos, que de tão estúpidos, parecem inexplicáveis. Talvez assim, poderíamos entender (ou desentender) o caso Isabella ou o do austríaco maluco. A maldade é fértil e engendra sempre maldade. Como nos lembra o indefectível Brás Cubas: O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Sabedoria Wikipédia

São Isidoro foi arcebispo de Sevilha, considerado um dos grandes eruditos e o primeiro dos grandes compiladores medievais. Sua obra influenciou largamente toda a produção intelectual na Espanha medieval. Isidoro nasceu na cidade de Cartagena, Espanha, de uma família influente que foi crucial para as manobras político-religiosas que levaram os reis visigodos a converter-se do arianismo ao catolicismo. Diversos de seus familiares foram canonizados. Foi canonizado em 1598, e em 1722 o papa Inocêncio XIII o declarou Doutor da Igreja.

É considerado, hoje, patrono dos bons usuários da Internet.


San Isidoro de Sevilla