quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

"Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos".

"Feliz é o destino da inocente vestal
Esquecida pelo mundo que ela esqueceu
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança"

Epitáfio

Rose, oh reiner Widerspruch, Lust,
Niemandes Schlaf zu sein unter soviel
Lidern.

Rosa, ó pura contradição, volúpia
De ser o sono de ninguém sob tantas
Pálpebras.

Rainer Maria Rilke
(tradução de Manuel Bandeira)

A Pantera

No Jardin des Plantes, Paris

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
Grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

Rainer Maria Rilke
(tradução de Augusto de Campos)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Feito um riachinho num ribeirão

Antes, nos outros lugares onde morara, tudo acontecia já emendado e envelhecido, igual se as coisas saíssem umas das outras por obrigação sorrateira - os parentes, os conhecidos, até os namoros, os divertimentos, as amizades, como se o atual nunca pudesse ter uma separação certa do já passado; e agora ele via que era dessa quebra que a gente precisava às vezes, feito um riachinho num ribeirão ou rio precisa de fazer barra.

ROSA, João Guimarães. "A Estória de Lélio e Lina". In: Corpo de Baile. Volume 1. Edição Comemorativa 50 anos. São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2006.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Plataforma 2009

Não põe corda no meu bloco,

nem vem com teu carro-chefe,

não dá ordem ao pessoal.

Não traz lema nem divisa que a gente não precisa

que organizem nosso Carnaval.

Eu não sou candidato a nada,

meu negócio é madrugada mas meu coração não se conforma.

O meu peito é do contra e por isso mete bronca

nesse samba-plataforma:

por um bloco que derrube esse coreto,

por passistas à vontade que não dancem o minueto,

por um bloco sem bandeira ou fingimento

que balance a abagunce o desfile e o julgamento,

por um bloco que aumente o movimento,

que sacuda e arrebente o cordão de isolamento.

João Bosco & Aldir Blanc

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Chá de Jurubeba

Lula tem razão: ler jornal faz muito mal ao fígado. Ouvi com atenção o conselho, uma vez que já exijo bastante do querido figueiredo...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Preleção I

(...)Mas era esperto o bastante
Para admirar o poeta
Por ele suportar com bons modos
As circunstâncias desagradáveis:
Aquelas damas com as melhores intenções,
Os esnobes e seus aplausos,
O canibalismo e as guerras
Do seu século.

Porque o palestrante apenas fingia
Estar entre eles, com eles.
Na verdade, recolhido,
Estava contando sílabas.
Servo da arquitetura,
Criador de variantes de cristal,
Se apartava da causa
Irrazoável dos mortais. (...)

MILOSZ, Czeslaw. "Preleção". In: Não Mais. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Coleção Poetas do Mundo. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2003.

Preleção II

(...) E infelizmente, infelizmente passaram
A alegria e o choro,
A fé e o desespero,
A vileza e o horror.
O vento cobriu de neve os sinais,
A terra levou os gritos,
Hoje ninguém mais se lembra
Como e quando isto foi.

E só um dourado, brilhante
Verso decassilábico
Perdura e perdurará pela própria
Harmoniosa razão.
E eu, tarde, retorno
Com um pouco de amargura
Ao seu cemitério marinho
Num meio-dia começado a cada dia.

MILOSZ, Czeslaw. "Preleção". In: Não Mais. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Coleção Poetas do Mundo. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2003.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Crase

Afinal, a crase foi feita ou não para humilhar alguém?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Pecado?

- "Dito, eu fiz promessa, para Pai e Tio Terêz voltarem quando passar a chuva, e não brigarem, nunca mais ..." " - Pai volta. Tio Terêz volta não." " - Como é que você sabe Dito?" "- "Sei não. Eu sei. Miguilim, você gosta de tio Terêz, mas eu não gosto. É pecado?

ROSA, João Guimarães. "Campo Geral". In: Corpo de Baile. Volume 1. Edição Comemorativa 50 anos. São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2006.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Legados de FHC

Sem dúvida alguma, o governo FHC foi medíocre, para dizermos o mínimo. E isso é ponto pacífico, a não ser que resolvamos dar ouvidos aos tucanos e neotucanos de plantão. Mas ainda há um pingo de lucidez a este escriba e certamente isso não faria. Assistiria a um jogo da série B, iria à Bienal ou beberia uma cerveja quente. Seria melhor. Digo isso porque me parece que nada tenha sido pior nos anos tucanos do que a indicação de Gilmar Mendes para o STF. Parece ficção o fato de que Protógenes tenha saído da condição de investigador para a de investigado em tão pouco tempo. Mas não é. Trata-se, na verdade, desta realidade crua que bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos. O mais alto "sentimento humano" jamais perdoaria FHC por tal façanha.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Também este dia passará

O dia ainda claro na igreja,
tudo em volta é esta solidão.
a vida em seus intervalos
o vazio da morte
a vida da vida.

Num mesmo
e outro tempo
meninos jogam futebol
até entardecer: horário de verão.

Ode Marítima

O que quero é levar pra Morte
Uma alma a transbordar de Mar,
Ébria a cair de coisas marítimas

PESSOA, Fernando. "Poesias de Álvaro de Campos". In: Ficções do Interlúdio. In: Obra poética. Vol. Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2001.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Um João

João não era fabulista, mas a própria fábula. Desses amigos que não precisamos "fazer", pois os reconhecemos desde logo. Há uma espécie de energia em cada momento compartilhado e que às vezes não nos damos conta. Contigo foi diferente. Rápido, percebi. Por isso, continuarei pensando que virás ainda para mais uma "mão de vaca", uma visita ao Masp ou para irmos ao restaurante japonês. João, nesta terça-feira, o dia amanheceu, mas não para nós. Fica a sensação de que um cometa nos transpassou, iluminando-nos por alguns instantes e dizendo que a vida é possível, apesar de tudo, que nós passamos por ela e ela por nós, e que nela vale a pena ter alegria. Morre jovem o que os Deuses amam é um ensinamento muito antigo. Culparemos os deuses, então? Hoje, neste imenso e vazio agora, a pergunta já não nos cabe. Ficamos com nossa saudade, esta ausência tua para outra vida, para a mesma vida, a vida continuando no que você viveu. Você não se despediu, mas sabemos conosco que faltará a este mundo um pouco de tua alegria.

El Aleph

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável.

BORGES, Jorge Luis. "O Aleph". In: O Aleph. Tradução de Flávio José Cardozo. São Paulo: Ed. Globo, 2003.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Carta ao Homem do Povo Charlie Chaplin

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duas horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados,
os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irreponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. In: Poesia Completa. Volume Único. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2002.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Astúcias do Dis-curso

Quando se ouve de Soninha Francine que a sua saída do PT deve-se a discordâncias com os rumos que o partido tomou, acho que todos devemos achar razoável e plausível o argumento. Quando Soninha entra para o PPS de Freire já não podemos pensar o mesmo. E o que dizer dos elogios que ela faz ao governador José Serra? Mas a gota d'água é este apoio a Kassab do DEMo. Que eu saiba nem Kassab, nem o DEMo são um jeito novo de fazer política. DEMo é PFL, que é Arena, e que é tudo o que há de mais atrasado neste país. "Ser jovem e idealista" é apenas um chavão marqueteiro associado ao que tem de pior na política. Votar na Soninha significa marcar uma posição: estar ao lado de "políticos tradicionais" e de um marketing que simula um olhar diferenciado sobre a política, mas que no fundo é muito pior do que tudo o que vimos e vemos por aí.

Partida

Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.

SÁ-CARNEIRO, Mário de. "Dispersão". In: Poemas. Edição Teresa Sobral Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Obra em Progresso

Sem querer inclinar-me para lá ou para cá, mas foi grosseirão o tal de Bagno, hein!