Tudo o que é científico ou que tem valor de lei geralmente é considerado como a mais pura expressão de civilidade, justiça e verdade. Embora esta afirmação seja bastante razoável por um determinado ponto de vista, não consigo me apegar a ela, pois considero a lei muitas vezes a supressão máxima da individualidade em favor de um mecanismo já pronto e que supostamente serve para toda a coletividade. Não, raro leitor, não defendo aqui o famoso "jeitinho brasileiro". Muito menos trato de alguma tese que fale sobre qualquer sentimento de "sobranceria". Para explicar-me, comentarei uma situação que sempre me traz reflexões interessantes, mesmo sendo realmente banal. Trata-se daquilo que certa vez um poeta chamou, sabiamente, de "sublime cotidiano". Ei-la: por andar sem carro nas madrugadas desta Pauliceia Desvairada, recorro sempre aos ônibus e, mais raramente, ao táxi. Portanto, em situação de emergência, já precisei muitas vezes dar sinal ao motorista fora do ponto. Ora, a lei não especifica horário para seu cumprimento. É lei e ponto final. Já experimentei as duas possíveis reações dos condutores. Quando passam direto, mesmo sabendo que não há mais veículos em circulação ou que esperarei um bom bocado por outro, sei que estão cumprindo a lei, à risca. Seguro-me para não xingá-los, pois eles estão certos: cumprem simplesmente o que já está estipulado como regra. Quando param, mesmo que bem longe do ponto, admiro a sensibilidade humana, a capacidade de transgredir a lei em prol de alguém que, já meio bêbedo, está precisando de uma cama. E sempre penso, com muita convicção, que eles também estão, sobretudo, certos.
sábado, 29 de maio de 2010
Lésbia
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora e sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.
Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.
Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...
Cruz e Sousa, Broquéis
Planta mortal, carnívora e sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.
Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.
Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...
Cruz e Sousa, Broquéis
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Sexo na Copa
O estilo de jogo de Dunga, todos sabemos, é papai-mamãe: Dunga levou seis volantes. Maradona, seis atacantes, além de comprometer-se a oferecer ao mundo um estilo cheio de acrobacias e piruetas, um verdadeiro kama Sutra. Se for campeão, promete comemorar pelado. Quem levará a melhor nas peladas sul-africanas?
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Eleições 2010
São Paulo tem 1522,986 Km² e 19.223.897 habitantes em sua região metropolitana. Barcelona, 91,4 Km² e 1.595.110 habitantes. Como se vê na foto, a capital catalã está construindo sua nona linha de metrô, acrescentando 50 novas estações ao seu já excelente sistema de transportes. São Paulo, aos poucos e com a habitual pressa eleitoreira, vai para a quarta linha, contabilizando 9 novas estações. Parece-me claro não ser possível comemorar com tanta veemência a "Expansãosp", o "maior projeto de transporte público já realizado no Brasil", como repete exaustivamente a propaganda tucana do Governo do Estado de São Paulo.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Déjà vu
O slogan dos tucanos em 2002, a saber, "continuidade sem continuísmo", não deu certo. Será que o atual "o Brasil pode muito mais" colará? O candidato demo-tucano insiste em não se opor a Lula. Serra ocultava suas discordâncias com o governo FHC outrora. Agora, esconde o jogo, diz que não é oposição. Quem será, então? Sei não. Parece-me que Serra terá o mesmo fim que Dunga em 2010.
Eles adoram um golpe
Do Blog do Mello:
Assim como todo aniversário tem o tradicional soprar das velinhas, o parabéns pra você, o com quem será (tenho filha pequena e conheço da coisa), aniversário do Blog do Mello não estaria completo sem o vídeo em que o deputado Bolsonaro mostra como nossa mídia que se diz democrática, que chama Chávez de golpista e Fidel de torturador e ditador, se comportou em seguida ao golpe militar de 1964, que eles incentivaram e ajudaram a propagar.
Mas não posso deixar também de lamentar que nosso Congresso ainda acolha entre seus pares um deputado como esse. Há alguns anos publiquei aqui uma postagem criticando uma entrevista de Bolsonaro a Diego Salmen, no Terra Megazine, onde ele conseguiu novamente espaço para divulgar pérolas de seu (ahan) pensamento político. Ao repórter, ele afirmou:
O pessoal da esquerda todo diz que foi torturado, mas você não encontra ninguém com uma marquinha na pele.
Não é de se estranhar que o deputado faça semelhante declaração. Na coluna Painel, da Folha, de 13 de agosto de 2006 foi publicada a seguinte nota:
Barra pesada. Cartazes expostos na entrada do gabinete do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ): "Araguaia: quem procura osso é cachorro" e "Direitos humanos: o esterco da vagabundagem".
Barra pesada. Cartazes expostos na entrada do gabinete do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ): "Araguaia: quem procura osso é cachorro" e "Direitos humanos: o esterco da vagabundagem".
A explicação para o comportamento do deputado só pode ser uma. Como ele só se tornou oficial em 1977, portanto dois anos antes da anistia, perdeu a oportunidade de torturar, que alguns de seus colegas de farda tiveram durante a ditadura. Talvez tenha saudades do que não fez, e gostaria que aqueles velhos tempos voltassem para que pudesse dar vazão a seu instinto.
Tenho certeza de que a maioria das Forças Armadas discorda das palavras do deputado, que se elege não por defender suas (ahan) idéias, mas melhores salários e mais verbas para Exército, Marinha e Aeronáutica – o que já está sendo feito pelo governo.
A tortura é uma ignomínia. No caso do deputado, à ignomínia soma-se o escárnio com os torturados e desaparecidos.
O que espera a Câmara dos Deputados para instaurar um processo da Comissão de Ética contra ele?
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terça-feira, 25 de maio de 2010
Ciência e Arte
Tu és meu Brasil em toda a parte
Quer na ciência ou na arte
Portentoso e altaneiro
Os homens que escreveram tua história
Conquistaram tuas glórias
Epopéias triunfais
Quero neste pobre enredo
Reviver glorificando os homens teus
Levá-los ao panteon dos grandes imortais
Pois merecem muito mais
Não querendo levá-los ao cume da altura
Cientistas tu tens e tens cultura
E neste rude poema destes pobres vates
Há sábios como Pedro Américo e César Lattes.
(Cartola e Carlos Cachaça)
Quer na ciência ou na arte
Portentoso e altaneiro
Os homens que escreveram tua história
Conquistaram tuas glórias
Epopéias triunfais
Quero neste pobre enredo
Reviver glorificando os homens teus
Levá-los ao panteon dos grandes imortais
Pois merecem muito mais
Não querendo levá-los ao cume da altura
Cientistas tu tens e tens cultura
E neste rude poema destes pobres vates
Há sábios como Pedro Américo e César Lattes.
(Cartola e Carlos Cachaça)
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Cara minha inimiga, em cuja mão
Pôs meus contentamentos a ventura,
Faltou-te a ti na terra sepultura,
Porque me falte a mim consolação.
Eternamente as águas lograrão
A tua peregrina fermosura;
Mas, enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te acharão.
E se meus rudos versos podem tanto
Que possam prometer-te longa história
Daquele amor tão puro e verdadeiro,
Celebrada serás sempre em meu canto;
Porque, enquanto no mundo houver memória,
Será a minha escritura o teu letreiro.
CAMÕES, Luís de. "Sonetos". In: Obra Completa em um volume. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2005.
Pôs meus contentamentos a ventura,
Faltou-te a ti na terra sepultura,
Porque me falte a mim consolação.
Eternamente as águas lograrão
A tua peregrina fermosura;
Mas, enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te acharão.
E se meus rudos versos podem tanto
Que possam prometer-te longa história
Daquele amor tão puro e verdadeiro,
Celebrada serás sempre em meu canto;
Porque, enquanto no mundo houver memória,
Será a minha escritura o teu letreiro.
CAMÕES, Luís de. "Sonetos". In: Obra Completa em um volume. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2005.
Reminiscência
Segundo o Dicionário Houaiss:
1. Imagem lembrada do passado; o que se conserva na memória; 2. Lembrança vaga ou incompleta; 3. Sinal ou fragmento que resta de algo extinto; 4. Rubrica: filosofia. No platonismo, lembrança de uma verdade que, contemplada pela alma no período de desencarnação (o entremeio que separa suas existências materiais), ao tornar à consciência se evidencia como o fundamento de todo o conhecimento humano; anamnese
1. Imagem lembrada do passado; o que se conserva na memória; 2. Lembrança vaga ou incompleta; 3. Sinal ou fragmento que resta de algo extinto; 4. Rubrica: filosofia. No platonismo, lembrança de uma verdade que, contemplada pela alma no período de desencarnação (o entremeio que separa suas existências materiais), ao tornar à consciência se evidencia como o fundamento de todo o conhecimento humano; anamnese
Pobre velha música
Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
Das fotografias
Com o raro leitor compartilho algumas reminiscências. O tempo não é concebido aqui como desgaste. Estas lembranças não são só lembranças: são vivências. A reminiscência, portanto, faz-me viver do outro lado do tempo, duas pontas atadas num outro momento, trazendo à vida mais sede.
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